Voltar a escrever aqui não é fácil. Não é fácil escrever depois de termos passado por perdas para as quais não temos palavras. 

Não é fácil perder o avô do meu filho. Não é fácil perder a amiga que me apresentou ao Zé e com esse gesto originou a minha família.

Não é fácil a perda. 

A nossa vida no entanto não pára. Os dias sucedem-se e com uma criança é mesmo impossível uma pausa, o silêncio que tanto procuramos nestas alturas simplesmente não tem lugar.

Damos por nós a rir e a ser felizes, seguido de uma tristeza profunda por já não o partilhar com quem gostávamos.

O Sebastião está com 22 meses não entende a perda mas percebe a ausência. 

O meu sogro adorava crianças. O nascimento do Sebastião foi realmente um enorme ‘presente’ que eu e o Zé lhe oferecemos.

No dia a seguir ao nascimento, foi logo buscar os papéis para o inscrever no clube do seu coração e é por isso que tenho um pequeno Leão com cartão de sócio desde essa altura. 

  

Comecei a trabalhar a tempo inteiro quando o Sebastião tinha sete meses. A partir dessa altura, o avô todos os dias o ía buscar para passearem. 

Os dois sozinhos. 

O meu sogro não tinha medo nenhum de andar com um bebé tão pequeno. Os passeios começaram por ser na rua, estenderam-se ao bairro e rapidamente à cidade e arredores.

Lá ía ele com ele ao colo, sem uma muda de roupa ou uma fralda, sem um biberão ou uma chucha. Às vezes ficava assustada com esses passeios. Um bebé tão pequeno. E se acontecesse alguma coisa? Nunca disse nada e nunca nada de mal aconteceu. Hoje fico muito feliz por os dois terem partilhado esses momentos.

Sempre que tocava alguém à campaínha ele corria para a porta a chamar pelo avô. Tinha que lhe explicar a sua ausência, e combinámos que iríamos dizer que o avô agora era uma estrelinha.

Foi o que aconteceu. Sempre que ele perguntava eu dizia que o avô agora era uma estrelinha. Ele ouvia e continuava a brincadeira. Pensámos que seria muito pequeno para perceber.

Um dia estava na cozinha e ele veio chamar-me, puxou-me pela mão para me sentar no sofá. Estava a fazer puzzles no iPad e eu pensei que queria ajuda. Pôs-me o iPad no colo. Era um desenho de um ursinho que ía dormir. Ele apontou para uma estrela que estava no desenho e disse: Vô. Como se esperasse uma confirmação minha. Naquele momento só me apeteceu desfazer em lágrimas mas engoli em seco e respondi que sim, que o avô era uma estrelinha como aquela.

Não voltou a chamar pelo avô quando toca alguém à porta. Vê fotos e vídeos mas sem perguntar. As únicas vezes que menciona o avô é se saímos à noite e ele vê o céu estrelado. Aí aponta com o seu dedinho minúsculo para a imensidão do espaço e afirma convictamente que ali está o avô.

Não sei o que entende com os seus 22 meses. Sei que cabe a nós como pais manter vivas as memórias das pessoas que amamos.

Mal posso esperar a altura em que poderei lhe contar que com 8 meses ía de autocarro até ao Campo Pequeno ou de comboio até Queluz comprar pastéis de nata. E no momento em que o levar a ver o primeiro jogo ao estádio, ele irá saber quem o queria levar e que a promessa feita está cumprida. O meu filho saberá sempre o quanto o avô o amava e a única coisa que posso fazer é agradecer o tempo que tiveram juntos.

Por estes motivos, foi para mim complicado escrever nos últimos dois meses. Escrevo este post para encerrar um capítulo, para explicar a minha ausência, para agradecer à Bárbara ter gerido o blog sozinha e acima de tudo, por saber que existem muitos pais a passar pelo mesmo.

 Para eles, apenas lhes digo: Dias melhores virão, basta olharem para os vossos bebés para terem a certeza disso.

Sandra

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Sandra
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