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Convidado Sweet Caos

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O que acontece se fizermos o contrário do que pensamos?

“Ai se fosse comigo”, “filho meu não fazia isso”, “era o que me faltava fazer-lhe todas as vontades”. Estas são frases que constantemente digo, e que a maioria das pessoas sem filhos dizem.

Porque escrevo este texto para um blogue que, apesar de nada ter a ver comigo, sigo?
Escrevo em jeito de desabafo de algumas frustrações que me tiraram um pouco a vontade de um dia ter filhos.

Tudo o que vejo ao meu redor assusta-me imenso, crianças sem regras e com comportamentos desproporcionais. Pior do que isso é começar a ser encarado como normal numa sociedade onde já se aplica o velho provérbio “em terra de cegos quem tem olho é rei”. Um(a) menino (a) que não dê em drogado ou em delinquente e que se vá safando na escola já é visto como um bom exemplo. Oiço pais a dizer “Ele não se porta mal mas é distraído, a professora diz que ele até aprende bem mas não faz os trabalhos. De manhã custa-lhe a levantar e fica na cama, de resto até diz que é educado. Bem, podia ser pior…” não entendo este discurso, as crianças deviam sair de casa educadas, a escola serve para aprender.

Eu acredito piamente que a educação de uma criança requer muita dedicação, não se pode ser educadora em part time, com isto não quero dizer que os pais não devem trabalhar (longe disso) mas se há coisa que as crianças aprendem à nascença é a manipular e acaba-se cedendo a caprichos por várias razões: comodidade, cansaço, vontade de ver as crianças, o pouco tempo que podemos estar com elas, contentes. A disciplina é dura para quem a transmite e para quem a recebe mas acredito que trará aos pais uma paz vitalícia.

Eu até me considero uma pessoa muito ligada às tecnologias mas abomino a nova geração tecnológica sem aprendizagem de maneio. Serei assim tão retrograda? Sei que tenho 27 anos, sou licenciada em Tecnologias da Comunicação, e não tenho paciência para dependentes do mundo virtual, principalmente pensar que os meus filhos podem vir a ser.

Serei eu capaz de estar num restaurante, com o meu marido e o meu filho ou amigos, e para querer conversar em paz e sossego meter-lhe um tablet na mão aos 2 anos? Por estas dúvidas que ainda me assolam vou levando a minha vida sem pensar se serei ou não uma boa mãe.

Cátia Barreira

 

Cátia Barreira é jornalista, directora da Raízes – Trás-os-Montes e Alto Douro em Revista e  membro da direcção da associação Utrapassar Barreiras– mulheres empreendedoras de Trás-os-Montes e Douro.

DoCoração DaCozinha

Faz hoje 17 anos e tive um dos dias mais estranhos da minha vida. Tinha uma loja para inaugurar e um filho para nascer. Aconteceram as duas coisas no mesmo dia.

Tu, Sarrafooo apressado lembraste-te de sair a correr, porque a mãe Kika Veríssimo apanhou um esticão na montra das frutas tropicais e rebentaram-lhe as águas.

Seguiram-se horas muito complicadas.

Primeiro porque tive que ir levar o boxer a casa e esqueci-me de o deixar na varanda e à solta desmanchou-nos metade da casa, comeu meio telefone, 3 kg de cebolas e um chorrilho de disparates. Depois tinha que vos ir levar ao hospital Garcia de Orta, porque o trânsito estava parado por todo o lado e era o sítio mais perto para nasceres.

És um Incrível Almadense, um Cavalo de Corrida, um UHF mal sintonizado.

Fizeste-nos rir e chorar, saíste cheio de avarias, com o disco rigido empenado, ataques cardíacos, paralisias e o diabo a 4. Olhei para ti e dei-te o primeiro biberão e ainda estava tão alcoolizado da festa que fiz horas antes que acho que te embebedei com a minha respiração.

Percebi que tinhas nascido diferente, muito diferente do que estávamos à espera… só abrias um olho por causa da paralisia facial, mas quando o fizeste olhaste para mim e disseste “blhergh”. Por causa disso, durante o teu primeiro ano de vida, ganhaste a cognome de Blherguinho.

O primeiro ano da tua vida encheu-nos de sarilhos, hospitais, fisioterapias, médicos e juntas médicas. E tu, Sarrafo, foste galgando adversidades e deste-nos força para ir atrás de ti. Estiveste ligado a mil máquinas, em coma profundo e um dia resolveste dar-nos outra vez o prazer da tua companhia e acordaste, ao lado da tua avó Hélia, que rezava todos os dias por ti e por mim, porque rezar sabes que é coisa que faço tão bem como cantar ópera.

Ensinaste-me a viver. Ensinas-me a viver todos os dias. Ao fim de 17 primaveras, este é o 1º aniversário que não passamos juntos, mas estás bem com a “mãe bizológica” como lhe chamas, a mãe Kika, porque tens a mania das grandezas e resolveste arranjar outra mãe, a Mãe Supi Ana. Cada vez que sais de ao pé de mim, roubas-me o coração.

És uma das minhas duas obras primas, agora estraga-te não te esqueças.
Rock´n´roll!

Joe Best é o brabo pai do Ricardo. Chef extraordinaire e criador do projecto Da Cozinha.

Ilustração: My Simple Life

Um no céu, outro na barriga!

Sempre olhei para uma gravidez sem grandes intercorrências e posterior nascimento de um ser tão perfeito a vários níveis como um verdadeiro milagre.
Desejava um dia poder vivê-lo na primeira pessoa, e o ano de 2013 deu-me essa oportunidade.
Não consigo ter noção de como a minha experiência foi influenciada pelo facto de ser médica, mas talvez tenha vivido cada passo da gravidez de forma um pouco mais ansiosa, talvez por saber ao pormenor teórico tudo o que pode correr mal.
Quis o destino que eu fosse uma das bafejadas com intercorrências graves (tal como a minha bebé), e que ficasse sem ela 6 dias após nascer, com apenas 26 semanas e 441 g.
O vazio que fica, depois de tantas expectativas e formatações mentais de que a vida mudará tanto depois do primeiro rebento, é algo indescritível.
Preparámo-nos para o resto da vida com uma filha que não viria para casa connosco.
Tudo estava orientado para mudanças radicais, mas nada mudou excepto nós.
Confesso que nos primeiros dias perguntava a mim mesma quando me deixariam tentar engravidar de novo.
Mesmo com os riscos inerentes, com a forte possibilidade de tudo se repetir queria tenta.
Logo percebi que, provavelmente, o meu corpo demoraria a recuperar e talvez ainda assim recuperasse mais rápido do que a minha mente.
Mas depois do luto (que apenas se transformou em saudade), a ideia foi ganhando contornos mais definidos na minha cabeça, e o impulso já não era o de substituir o silêncio deixado por uma filha, com outro filho. Era a de preencher um lugarzinho novo que se tinha criado no meu coração, ao lado do cantinho que seria para sempre ocupado pela minha filha.
Era continuar a ser mãe (de uma forma mais convencional, se possível), porque já me via nesse papel mesmo que de uma forma que ninguém ensina.
Nesta segunda vez, a experiência de uma nova aventura da maternidade começou muito antes de ver um teste positivo de gravidez.
Havia uma possibilidade de não poder voltar a engravidar, pelo que a cada mês que passava sem o conseguir havia ali um dia em específico em que me ia abaixo.
A razão dizia-me que era normal, a emoção já era mais difícil de controlar.
Quando aconteceu, começou a montanha russa que ainda hoje, às 35 semanas de gravidez, vivo.
Iria o pequeno embrião aguentar-se?
Pela elevada taxa de abortos iniciais, guardei para mim.
O pai soube 3 dias depois, quando senti uma vontade incontrolável de começar a viver a felicidade.
Mas deveria vivê-la? Deveria “fingir” que não existia até ter certezas, de forma a proteger-me de mais dor caso algo corresse mal?
Decidi desde início que este meu segundo filho não merecia contenções pelo que já tinha passado, e que ia ter direito ao “pacote” de sentimentos completo.
Se algo corresse mal, assim continuaria, e teria um lugar tão especial no meu coração como a irmã.
Foi uma decisão importante, que me deixou começar um diário de gravidez, renovar planos, começar a comprar coisinhas para o seu enxoval, saber que iria conseguir montar um quarto novo. Não queria proteger-me de sentir, mas para além deste imenso amor por uma criaturinha tão pequena, o medo (o pânico!) estava sempre presente. Incontrolável, na maior parte das vezes. Mas disfarçável…
Durante estes quase 8 meses, não houve vez que fosse à casa de banho e não ficasse nervosa para ver se teria alguma hemorragia.
Não houve dor, por mais pequena que fosse, que não me trouxesse a angústia de não saber se estava tudo bem.
Não houve ecografia que não fosse antecedida por vários dias de ansiedade, a imaginar sempre mil e um cenários possíveis de coisas que pudessem estar mal. Não houve dia em que não medisse a tensão (por vezes 2 e 3 vezes, tendo-me rido quando a médica me recomendou no início do 3º trimestre “Agora, se conseguir, tente medir a tensão pelo menos 2 vezes por semana”).
Muitos dias em que achei que a barriga estava demasiado grande ou demasiado pequena, demasiado descaída ou pesada.
Muitos dias em que confundi cãimbras irradiadas na barriga com contracções prematuras, muitos pesadelos com bolsas rotas prematuramente, muito medo do meu corpo me voltar a “falhar”.
Não, não me sinto culpada de nada, mas não posso deixar de assumir o facto de que o meu corpo me falhou numa das coisas que lhe deviam ser mais naturais.
Pergunto-me, por vezes, como será viver uma gravidez tranquila, e ser abençoado com o nascimento de um amor maior, e ele chorar nos nossos braços.
Pergunto-me se, independentemente da sua experiência prévia, haverá alguma grávida realmente sem stress, sem medos.
Talvez não… Talvez a minha experiência não seja assim tão diferente da da maioria.
Sei que nunca terei uma gravidez sem pânico, mas se tiver direito ao prémio final, como espero, tudo será compensado…e espero brevemente dizer-vos por experiência própria (cheia de olheiras, despenteada, e com a roupa bolsada), que ser mãe de um bebé que quis ficar pela Terra é o melhor do mundo!
 Ana Matos

Ana Matos é mãe da Leonor e do Leonardo, médica e autora do blog Our Mad World

Eu aqui mando (infelizmente) pouco

Há lá nome mais apropriado para um blog sobre estes assuntos do que este? Na
maternidade, em especial nos primeiros filhos, tudo isto é um caos, mas um caos fofinho.
Daqueles tipos de caos que não nos apetece ainda mandar da janela mas quase, já nos
apetece fugir para a longe. Pelo menos é isso que sinto com a M., que já conta com 2 anos e
quase 5 meses.
Sou, tal como a Sandra e a Bárbara, “mãe de 1a viagem” (há lá expressão mais parva) e
tenho em comum pelo menos com a Sandra o facto de ter conhecido o meu marido e pai da
M. no Twitter.
A M. nasceu antes dos filhos delas e uns meses após eu ter casado.
Se eu achava que ia gozar os primeiros meses ou primeiro ano de casada sem crianças
estava bem enganada.
Temos sempre aquela ideia de que o 1º filho vai ser fantástico e que o vamos tentar educar
como achamos certo.
Facto é, pelo menos por aqui, que eu mando muito pouco.
A M. tem-me pouco respeito quando percebe que tem as costas quentes com avós e tios
pelo meio.
Se eu digo que não a uma coisa há sempre alguém que vai dizer “oh coitadinha, vá lá, deixa
lá…” ou mesmo ela olha para mim do alto/baixo dos seus caracóis e pede “pojo fazê ixo,
mamã?” e eu acabo por encolher os ombros se perceber que não tem problema para ela.
Ela é uma criança que dificilmente se percebe que apenas tem 2 anos e 4 meses. Eu que
sou a mãe às vezes dou comigo a pensar que esta criatura só pode ser mais velha, até
mesmo pelas conversas que já a ouço ter.
A minha casa, que eu gostava tanto de ver organizada, 80% das vezes parece um campo de
batalha e quando não parece é porque acabou de ser limpa ou passou o vendaval Mãe.
A minha personalidade tem essa característica. Gosto de ser organizada, demais às vezes e
isso é difícil quando temos uma criança.
Ser mãe é fantástico mas algumas vezes apetece-me tirar férias ou pôr uns fones nos
ouvidos para não ouvir chamar por mim de minuto a minuto.
Mas não o troco por nada, ainda que tenha de usar um forte corrector de olheiras e beber um
balde de café diário porque intravenoso dá nas vistas. 🙂

Coração Gordo

Este podia ser um texto sobre problemas cardiovasculares, hipertensão, alimentação saudável ou exercício físico. Mas não é. Também podia ser um texto cómico – ou que tentasse sê-lo – mas não é. É sobre a história mais bonita que eu podia ter a felicidade de viver e é também uma declaração de amor.

Faz quase três anos que o meu coração engordou. Engordou, dilatou, ganhou espaço que eu apenas suspeitava que pudesse ter. Pouco tempo depois do nosso Encontro, o N. confiou em mim e confiou em Nós para me apresentar aos seus três Príncipes. Duas meninas e um menino por quem eu também me apaixonei. E neste caso foi mesmo à primeira vista, ou ao primeiro encontro, e esse Amor tem vindo a crescer desde então, ao ritmo a que nós todos crescemos e construímos, a cada dia, a nossa Família. De sorriso aberto e olhos brilhantes, e com aquele ar curioso e expectante e um pouco intrigado de quem não sabe o que esperar, receberam-me nas suas vidas e nos seus corações, e desde então até agora, não há um dia que eu não me sinta abençoada, privilegiada, por eles me deixarem fazer parte das suas vidas.

Estamos juntos apenas dois dias de duas em duas semanas, em média, como acontece com tantas outras famílias “do” divórcio. Mas eu sou Madrasta deles e eles são meus enteados – meus ente(am)ados – todos os dias. Todos os dias, cada gesto meu é feito também a pensar neles. Como escrevi no texto que levou a Sandra e a Bárbara a abrirem-me a porta do seu doce caos, eles “merecem que eu faça tudo o que estiver ao meu alcance para construir um lar para eles, e ajudá-los a crescer para serem pessoas plenas e a saberem que podem voar para onde e como quiserem, e que vão encontrar sempre um porto de abrigo ao nosso lado, à espera deles.” E é isto.

Imagino que muita gente se questione e duvide que seja possível amar de forma genuína os filhos de outra pessoa. Ou que estranhe tudo isto… E não deixei de ouvir ou de intuir, com um tom ora de admiração ora… não sei bem do quê, um ou outro “não sei como és capaz” ou “acho que não conseguia”, ou ainda o corriqueiro e cheio de fé “valha-me Nossa Senhora” (ou a sua variante também muito boa, “Nossa Senhora me livre e guarde”). A única resposta que tenho é “como não?” Como é possível amar uma pessoa e não amar aquilo que tem… aquilo que lhe é mais querido e precioso? Nunca foi sequer uma opção para mim. E foi fácil fazê-lo. Simples. Por esse motivo.

Como em muitas histórias de Divórcio onde não são só os pais que se divorciam, os “nossos” Príncipes tinham todas as desculpas e todos os motivos do mundo para serem miúdos problemáticos, difíceis. Mas não são. Como o N. diz, estão a dar aos pais uma lição, ou várias. E a mim também, que gosto e estou sempre disposta a aprender, não só um novo ponto de crochet ou uma palavra nova, mas também a Viver. Assim, com letra maiúscula. A viver com uma maturidade que não tinham que ter, com uma sensibilidade que lhes é inata e que cresce de dia para dia, e com uma inteligência que desabrocha e se reflecte nos mais pequenos detalhes. Por isto vivemos num misto de emoções, entre a preocupação e a ansiedade e a culpa, e a tranquilidade e a confiança de que não há motivos para preocupações. São miúdos fantásticos, e é uma alegria e um prazer vê-los crescer e simplesmente ser. Tornar-se.

Esta tem sido a minha história, e haverá milhares e milhares de outras diferentes, por isso não tenho conselhos para dar a quem de repente ficou com o coração dilatado e ganhou uma nova família. O que posso dizer é que, quando digo que é simples, não quero dizer que seja imediato e que eu tenha todas as respostas na mão. Não tenho. Longe disso. A qualquer momento se cometem erros e há que aprender com eles, mas posso dizer que se partirem nesta Aventura de coração aberto, as coisas acabam por ir ao seu lugar e as respostas chegam duma forma ou de outra. Posso dizer com algum orgulho que nunca ouvi um “Não és minha mãe”. Acho que este será o maior pesadelo de qualquer madrasta ou padrasto… O segredo? Não agir como se fosse. É estranho sentir-me Mãe sem o ser, confesso, mas não sou. É preciso ter sempre presente que, felizmente, eles têm uma mãe e um pai que os adoram e fazem o melhor que sabem para o ser, e o bem deles passa por cultivar e valorizar essa relação e contribuir para ela como for possível. Como me deixarem. Mas também não sou uma irmã nem uma amiga nem uma tia. Sou a Madrasta deles, que os adora, e que é uma espécie de terceiro adulto que se sente responsável por eles, que só quer o bem deles, e com quem eles podem sempre contar para o que for preciso, mesmo que não saibam o que é preciso. Se partirmos para esta Aventura com o tal coração aberto, cheio, é possível encontrar um equilíbrio entre a doçura e a autoridade, sem se ser autoritário. Não esquecer que o tempo que temos juntos é precioso e não pode ser desperdiçado com pequenas coisas que não importam. Deve ser aproveitado sim, para as pequenas coisas que importam, como ficar à mesa na conversa depois de cada refeição, ou jogar às cartas, ou fazer um puzzle, ou ver um filme todos enroscados no sofá, ou dar um abraço apertado e muitos muitos beijinhos sempre que nos apetecer. Trata-se de cultivar o carinho e a atenção uns pelos outros. Porque um fim-de-semana passa a correr. O tempo escorre-nos pelas mãos e é doloroso ver chegar a hora de se irem embora quando ainda mal chegaram… Passo duas semanas de braços abertos…

O meu coração engordou e multiplicou-se, e sem ter tido dores de parto, tenho mais três corações fora do peito.

Ana é a autora do blog Confissões de uma procrastinadora em recuperação

A extrema adaptação à maior mudança da vida.

Quando penso em algo que gostava de partilhar com as pessoas, vem­-me inúmeras memórias de felicidade à cabeça, destes pequenos grandes 15 meses de vida do meu filho.
São tantos os momentos em que me arranca um sorriso, uma gargalhada, um olá rasgado, um carinho… mas essa parte toda a gente conhece do que é ter um filho.
São a nossa maior alegria.

Hoje quero partilhar algo muito próprio, a adaptação a uma nova vida desde o dia de nascimento dele.

 

Um dia marcante, mesmo para a minha fraca memória, mas demasiadamente importante para perder um único momento daquele momento mágico.

Antes de me tornar pai, estava habituado a ter a minha rotina, absorvido por projetos e objetivos, uma ambição desmedida de aprender sobre tudo da minha área.
Podia agendar a vida como queria e ainda assim as 24 horas eram escassas, deixando um sentimento de correr atrás do tempo.

As viagens, quer de trabalho, quer de lazer, faziam parte de um estilo de vida, conquistar o mundo nos negócios e na aprendizagem de novas culturas.

Até que chegou aquele dia, aquele que pegou no meu castelo de cartas, construído muito cuidadosamente ao longo dos últimos anos, o derrubou, baralhou e me devolveu para que o voltasse a construir.

Esta é a melhor descrição que encontrei, nestes 15 meses, que descrevesse o processo pelo qual passei com o nascimento do meu filho.

Ele é lindo, mágico, consegue aquilo que mais ninguém consegue com tanta facilidade, mas nem ele me conseguiu preparar para tamanho desconcerto.

Nós humanos, somos seres de hábitos e ele fez me perceber que havia muito mais para além da rotina orientada a objetivos que era a minha vida, sempre a correr contra o tempo.

A minha devoção para com ele e a sua exigência para comigo, fez com que calmamente deixasse de correr desenfreadamente em procura de algo e começasse a encontrar o meu tempo, que começou a ser o suficiente para o trabalho e para ele.

Ainda tem 15 meses e já me ensinou a ser melhor, a partilhar melhor de mim e as 24 horas do dia passaram a ser suficientes.

  

Foram 15 meses muito desafiantes, onde tive que aprender a viver a minha nova vida, onde tive que aprender a conhece-lo, mas valeu tudo a pena, ai se valeu!

Ainda estou a aprender e sinto que o vou fazer toda a minha vida, mas não me importo.

Aquilo que ele retribui é tão forte, tão bom, que tive que me esforçar, para hoje transpor em palavras, as dificuldades deste processo de me reinventar.

A minha intenção em partilhar este texto é confortar os papás que iniciam a sua viagem, pois acredito que todos passamos por este processo, mas não falamos muito sobre ele.
Talvez por termos receio do que as outras pessoas possam pensar, do que nos podem julgar. É um processo normal que hoje consigo ver com maior clareza.

Ajustem-­se, aprendam com eles, mudem o que for preciso, mas aproveitem.
É tão bom, garanto.

Pedro Silva

Pedro Silva é o super pai do miúdo da Bárbara, a co-autora deste blog.

Ah e tal e o sentido da vida

Ora bem, o que faz uma rapariga solteira – e boa rapariga, como eu – sem filhos num blog sobre maternidade e coisas afins? Não sei. Talvez daqui a umas linhas consiga ter uma resposta. A verdade é que aquilo de que eu gosto mesmo é de perguntas. Sou filósofa (sim, a sério!) e trabalho com crianças. Sim, filosofia. Crianças. Filosofia para crianças. Com crianças. Sim, no 1º ciclo. E em escolas públicas. Inacreditável, certo? Não ajuda se eu disser que um dos meus lemas de vida é “não te esqueças de pensar em seis coisas impossíveis antes do pequeno-almoço”, pois não? Tenho conhecido muitas crianças , muitos educadores e professores – e pais. Pais preocupados com a educação do seu filho, outros que estão nem aí. Entre o excesso e o defeito, conheço muitos pais conscientes do seu papel e disponíveis para ouvir os seus filhos. É verdade, as crianças têm um papel a dizer sobre aquilo que é a sua vida. Mais do que possam imaginar. Quando uma criança de 3, 4 anos verbaliza perguntas como “porque é que não posso fazer aquilo que quero?” ou sabe dizer “este boneco é só de brincar, não é a sério” – está a manifestar a sua forma de ver o mundo e a interrogar-se sobre coisas como a autoridade, a liberdade, o real e o imaginário. À medida do seu mundo, a criança vai-se interrogando. Procura respostas. Como as pessoas crescidas fazem todos os dias, verdade? IMG_0032 E como todos andamos à procura de respostas, porque é que não admitimos isso perante os nossos filhos? Dizia-me uma vez um pai que evitava as perguntas do filho pelo receio de não ter respostas para ele. “Eu sou pai, deveria saber”. Sim, é pai, mas também é uma pessoa à procura, a construir o sentido da vida. Com certezas e dúvidas, com perguntas e respostas. Mostrar à criança, desde muito cedo, que somos “só” (pessoas) humanas acontece em pequenas coisas: permitindo um espaço de liberdade, com regras e diálogo sobre aquilo que se passa. Com transparência na palavra e na acção. Com a honestidade de quem sente que pode errar e nem por isso deixa de persistir. E existir. Ser. Joana Rita Sousa Filósofa, (não) professora de filosofia (para crianças). Mais aqui: http://joanarssousa.blogs.sapo.pt Ilustração: My Simple Life