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Filosofia para os mais pequenos ao domicílio! 

Já cá falamos no blogue de Filosofia para os mais pequenos. Lembram-se? Foi escrito pela Joana, a nossa primeira convidada. 🙂

A Joana tem agora uma fantástica novidade para todos aqueles que gostavam de experimentar a filosofia mas por questões geográficas ou outras nunca conseguiram participar nas suas acções!

Chama-se Filopenpal e significa filosofia por correspondência! Já não chegava ser fantástico por ser filosófico e ainda leva a carga mágica de uma carta recebida em formato físico pelo correio! 

Por isso meus queridos pais com crianças com 4 anos ou mais, entrem nesta aventura e inscrevam-se! 

Perguntas, respostas e demais desafios esperam pelos vossos petizes e claro que vocês também terão que fazer parte deste jogo! Alguém tem que ler aos mais pequenos e ir aos correios despachar a carta! Mas tudo sem pressa e com muito carinho!

Querem mais informações? Visitem o blog da Joana ou mandem e-mail para joanarssousa@gmail.com
Depois contem-me tudo! Que eu ainda tenho que esperar uns aninhos para participar com o meu miúdo! 🙁 

A Contadora das Emoções

O meu nome é Mariana Machado, sou contadora de histórias desde 2008.
A convite de uma amiga que conheci no teatro, aventurei-me a colaborar com o convento de San Payo no serviço educativo como uma bruxa trapalhona que visitava as escolas do concelho para espalhar a palavra.

Os temas eram diversos. Na altura, honestamente não sabia muito bem o que fazia.
Era uma espécie de teatro em que apesar da roupa, podia ser eu mesma e dar o meu cunho pessoal às histórias que me pediam para contar.
Em cada escola por onde passava, regressava a casa rejuvenescida ao ver que as histórias eram especiais para cada criança.
Eu própria me sentia especial por conseguir levá-las para um mundo de fantasia. E apesar da maioria achar que os contos são para crianças, aquela fuga da realidade sabia-me tão bem!


Não é que o meu objetivo com a narração fosse a fuga à realidade.
Não, até porque temos que ter a consciência que nas idades mais pequenas aquilo que lhes é transmitido é para elas a realidade. A criança identifica-se com o conto e está receptiva a absorver o que a história lhe oferece de imediato, sem preconceito nem juízo de valores.
E isso fascina-me!


Sem ter sido um objetivo consciente no incio, é notório que o trabalho que tenho desenvolvido enquanto contadora passa muito pelo despertar de competências emocionais através da narração. Há mesmo quem me vá chamando “A Contadora das Emoções”!

Na verdade, acredito que os contos contribuem e muito no desenvolvimento do campo emocional e podem auxiliar as crianças a vencer dificuldades psicológicas complexas, pois oferecem a possibilidade de se construir uma ponte entre o mundo interior e a realidade externa. Na maioria das histórias está implícita uma linguagem simbólica que comunica diretamente com o inconsciente e mesmo que a criança não expresse a sua compreensão acerca da mensagem contida na história, isto não significa que esta não foi assimilada.

Por isso surgiu também a vontade de fazer oficinas parentais na descoberta ou redescoberta das emoções utilizando os contos como principal elemento.
Ao longo da história da humanidade, os contos da tradição oral uniram povos como principal canal de transmissão de valores.

A comunicação é o maior dos bens que possuímos e que temos o dever de preservar. Portanto, enquanto narradora, nada melhor do que preservá-la através de contos com as famílias, porque afinal, somos todos uma grande família!

Abraço cheio de ratos, princesas e dragões,
Mariana
www.mariana-machado.com
https://www.facebook.com/marianam.contos

Ser tia

Adorei o convite da Sandra e da Bárbara para um post aqui no Sweet. Demorei um pouco, mas a ideia estava cá, afinal faz parte do meu dia a dia.
Sou tia de vários filhos de amigos. Não me tratam necessariamente por tia, mas sinto-me tia de todos eles.
Ser tia passa muito por ir com eles brincar para o chão, construir legos ou simplesmente ficas a ver tv com eles aninhados em mim, cada um à sua maneira (o João tinha de ter nem que fosse uma mão em cima de um braço meu, o Diogo punha os pés debaixo de mim). E passa muito também por querer saber da sua evolução, estejam a começar a andar ou a acabar o 5º ano (a sério, Diogo, 5º ano já feito?).
Há filhos de amigos que não acreditam na idade tenho. Não porque tenham noção do que cada idade parece, mas porque me vêem mais próxima deles que dos pais. Sabem que sou amiga dos pais, por isso devo ser crescida, por outro lado sou quase uma deles, não posso ter quase 40 anos como os pais.
Mais que os maçar com pedidos de gracinhas, adoro observá-los, cinco minutos que esteja com um baby são para aproveitar, são para ver um gesto, uma gracinha e tentar guardá-la para sempre na memória. Não invado, não vou a correr para cima de um bebé, fico à distancia a dar-lhe espaço, ele saberá quando me quer dar confiança. Gosto muito de provocar uma gargalhadinha a um bebé, e adoro quando já mais velhos me topam o tom mais sarcástico ou irónico. Ouvi-los rir ou dizer “olha a Marta, disse assim…” é música para os meus ouvidos. Ser tia é um pouco deixá-los conhecer-nos, sentirem-se próximos ainda que nos respeitem como adultos que somos. O João e o Diogo são dois desses sobrinhos. O David também. Talvez a Marta me veja assim às vezes. Há mais, mas estou com todos menos vezes.
A Carlota… Se me seguem no twitter ou somos amigos de facebook (adoro) saberão que há uma Carlotinha na minha vida. Bom, a Carlota foi uma sobrinha que me apareceu no caminho, a mãe e eu somos amigas de infância, estivemos alguns anos sem contacto e entretanto reencontrámo-nos. A Carlota nasceu numa altura em que eu estava sem trabalhar e a mãe propôs-me ficar com ela dois meses. Depois a Carlota iria para a escola. Muito bem, assim ficou combinado e comecei em julho de há dois anos, tinha a Carlota 5 meses. Um pouco antes do fim do mês a Carlotinha começou uma caminhada que não esperávamos. Para não tornar este um post muito pesado direi que acabei por ficar com ela mais nove meses que os dois previstos, acompanhei de perto e in loco consultas, exames, ressonâncias. Dar-lhe de comer era uma aventura diária, cada dia era de uma forma e uma reacção diferentes. Está tudo bem agora, ainda não acabou, mas a Carlota está numa escola maravilhosa e é muito bem acompanhada por todos os lados (é mesmo assim). Ora, a minha relação de tia com a Carlota é necessariamente diferente por vários motivos. Estive diariamente com ela e foram dias muito intensos, de muita responsabilidade, mas dias sempre emocionantes e divertidos muitas vezes. A Carlota nunca me esquece, mesmo que não a veja um mês seguido. Saber que se faz parte da vida de uma criança que não nos vê é uma sensação indescritível. Agora a Carlota também já consegue estar sentada no chão a brincar e seguir-nos conversas e pedidos de gracinhas (eu sei, mas é irresistível). Ser tia é emocionar-me com a normalidade que ela vai conquistando diariamente.
Enfim, adoro todos os meus sobrinhos e adopto todos os que posso. O Vinnie e o Sebastião são sobrinhos de todos nós, que seguimos as suas mães. Adoro cá vir saber novidades de todos, meninos e mães nas suas primeiras viagens.
Marta Spínola é tia sem o ser de diversas crianças, autora do blog Da vida de Pi e criadora da hashtag #CarlotaDays. Twitteira extraordinaire.

Arrumar gavetas interiores!

Todos nós temos dias de decisões importantes, são as nossas decisões, mas quando as mesmas interferem com a vida de quem mais amas, elas provocam-te um gostinho azedo na boca e um amargo no coração.
No dia em que tomamos a decisão de recomeçar (não gosto desta palavra) tudo de novo num outro país sem ser aquele onde nasceste(mos), as coisas tornam-se estupidamente complicadas a nível de sentimentos.
Abres gavetas interiores e tens que arrumar tudo muito bem ou acabas por misturar emoções em compartimentos errados.
Depois, depois é ensinar a uma menina de 10 anos, que apesar da sua tenra idade, já tem compartimentos dentro do seu coração/armário e por isso vai ter que aprender a deitar fora o que não presta e renovar os seus sentimentos e emoções.
Não é fácil explicar a uma filha que durante 10 anos nunca se separou de ti, que vai ter que ficar a viver com os seus segundos pais/avós e que vai ver os seus primeiros (nós) somente de 3 em 3 meses.
Não é fácil ligar o skype diariamente e falar para um ecrã e disfarçar que a vida vai bem quando está um inferno (para ambas). Por isso mesmo, chegámos a um acordo, eu e a minha filha só iríamos ao skype quando os nossos sorrisos fossem sinceros. Para pior já bastava assim.
Nunca foi imposto à B. um beijo sem que este surgisse espontaneamente, um abraço sem que fosse sentido, muito menos um sorriso que não viesse da barriga até aos lábios.
Assim fizemos.
Os dias e meses foram passando, as suas aulas foram indo bem…até ao dia em que começou a descer as notas. Falo de uma aluna exemplar. Nesse mesmo dia, nesse mesmo skype, o meu sorriso tornou-se sério, o sobrolho levantou e exigi que a B. não se escondesse atrás do “problema” de não me ter por perto.
As notas nao podiam baixar, ela sempre soube que eu nao aceitaria desculpas escondidas atrás de facilidades dadas porque algo na vida mudou.
Mudança nao significa fraqueza, muito antes pelo contrário.
Depois disto, as notas voltaram ao seu lugar correcto e a B. mais uma vez terminou o seu 6 ano com notas exemplares.
Aí começou mais uma voltinha mais uma viagem (um ano se tinha passado).
Arrumou a sua mala, olhou o seu quarto e resolveu não trazer nada a não ser meia dúzia de roupa, aquilo que é importante em Portugal não é importante em Inglaterra.
Recordo as palavras dela no seu primeiro dia de aulas em Oxford, cidade onde vivemos.
Lembro que ao ficar na escola no seu primeiro dia de aulas ela nos disse…”Vou mas vou contrariada” .
E lá foi a B. “contrariada” fardada…novas pessoas…aulas diferentes mas sobretudo uma língua que não era a sua.
E já lá vai mais um ano. O target que lhe foi dado foi ultrapassado em muito a todas as disciplinas. A vida social é agora intensa e o seu accent very British.
E enquanto vos escrevo estas palavras…não escondo o orgulho que sinto deste pequeno grande ser humano que por acaso é minha filha…ela diverte-se em Paris numa viagem proporcionada pela sua escola.
A prova foi superada. Muitas outras provas virão na sua vida. A diferença entre superar e ganhar provas é a consciência que se tem que ter em relação ás vitórias.
Agora… agora são tempos de férias e muita diversão.
E no nosso amor…a B. ensinou-me que não tem tracinhos nem intervalos…porque nada nos separa num “amote” sincero!

Lia Whiting é a Mãe Emigrante da B. e do D.
Fundadora da primeira ‘buate’ virtual da história do Twitter e vencedora (com mérito) de dois Tweets d’Ouro na categoria de “Vernáculo”.

Martim | Quando os milagres acontecem

Vai fazer dia 20 de Novembro de 2015, 10 anos que aconteceu um milagre.
Não foi o nascimento de um primeiro filho que só em si acarreta todo um mistério mágico, foi a luta pela vida!
Uma luta onde as 24, depois as 48 horas e assim sucessivamente eram sempre as mais importantes.
Dia após dia vivíamos com o coração nas mãos. Mas a vontade de Deus em virar o jogo foi mais forte e deu-nos uma lição a todos.

A primeira foi que Ele realmente existe, se por algum segundo eu duvidei…
A segunda foi a força de um bebé de 26 semanas em querer viver é superior a qualquer diagnóstico médico e a terceira foi dar importância a cada instante, a cada segundo, como se o dia de amanhã não fosse assim tão importante…

Depois disso as lições, as aprendizagens, a LUTA, o exigir o MELHOR, o querer fazer MAIS, o querer ACONTECER, foram constantes.
A palavra Medo foi substituída pela Esperança.
A palavra Paralisia Cerebral deixou de ser um papão.
O Hospital a nossa 2ªcasa.
As operações, era apenas mais uma…
Terapias, terapeutas, palavras que começaram a fazer parte do nosso vocabulário.
A impaciência foi substituída pela paciência.
O “e o amanhã?” foi substituído pelo “é agora” e tantas outras…

Sim o Martim É um Milagre, é um Guerreiro, é uma Força da Natureza, é a prova que não existe Im´Possível.
20 de Novembro 2005, 900 gramas, 27 cm
Diagnóstico: Prematuridade, Paralisia Cerebral
9 anos a caminhar com e para ele foi a melhor coisa que a Vida me podia dar.
Sorte, muita sorte tivemos com as pessoas que cruzaram o nosso caminho e que tenho a certeza que vão continuar a cruzar. Pessoas essas tão importantes e que nos dão força para continuar a caminhar numa sociedade que ainda é relutante a aceitar as diferenças, onde o Estado de ano para ano corta o orçamento na educação das crianças com necessidades educativas especiais, onde os abonos e ajudas são quase inexistentes, onde não existe formação/sensibilização nas escolas para educadores e alunos saberem conviver e respeitar cada diferença de cada criança seja ela qual for. Onde os pais de algumas, em pleno seculo XXI, olham para o lado, preferem acreditar num mundo “perfeito”.

Dias difíceis vão existir sempre, mas o que interessa no fim das contas é não desistir. E porquê? Porque os nossos filhos merecem acreditar que existe sempre um dia melhor a seguir ao outro… Porque acredito que quase tudo na vida se consegue. Com esforço, com trabalho, com dedicação, com entrega, com partilha, com lágrimas, mas principalmente com sorrisos, com fé, com certezas, com querer, com amor e com pessoas incríveis que conhecemos.
A descrença dos dias de hoje entristece-me. Mas depois olho para o Martim e sempre que recordo o caminho que percorremos nestes 9 anos torno-me numa mulher crente na dúvida e na incerteza que o futuro trás consigo.

Grande parte da mulher que sou hoje devo ao Martim, do que ele fez de mim!
Se podia ser melhor? Claro que sim! Tão mas tão melhor… Mas ainda tenho muito para aprender, uma vida… e como uma vez li:
“Ninguém é tão grande que não possa aprender, nem tão pequeno que não possa ensinar.”
E como Jorge Palma diz…
“Enquanto houver estrada pra andar A gente vai continuar Enquanto houver estrada pra andar Enquanto houver ventos e mar A gente não vai parar…”

Ana Paz Sousa é a Mãe Coragem do Martim e do Francisco.

Mater

E fez-se luz quando tu deste à luz
No filho lindo a luzir em teus braços
Ao neles reconheceres teus traços
Nesses teus braços que o amparam nus.

Esta tua vida ganha outro sentido
Em tudo aquilo que até aqui se fez
Foram nove meses de gravidez
De duas vidas só, num destino unido.

E tu assim és uma mãe linda agora
És mulher tão completa e realizada
No sentido de um amor mais profundo.

Ao escutar feliz teu filho que chora
Sabes agora não te faltar nada
Porque trouxeste vida a este mundo.

Nuno Branco é advogado e faz parte da direcção da Associação Raríssimas. Publicou este soneto clássico sobre a maternidade no livro ‘A poesia do nascer’. Antologia organizada por Mário Cordeiro, Editora okidoki, em Maio de 2005.

O Autismo é f…

Sabem aquele livro do Miguel Esteves Cardoso, O Amor é f…? Eu digo que não é bem o amor, mas o autismo. É certo, eu não tenho medo das palavras, do seu som ou intensidade. Sem ser a palavra f… – que podem estar menores a ler-me – diria com enorme segurança que Autismo é “Desconcertante”.

Há um momento negro que todos os pais destes miúdos recordam – que naturalmente os outros pais secretamente temem que lhes suceda: Um senhor doutor de bata branca sentado a uma secretária num qualquer consultório mais ou menos pomposo a debitar palavras que, essas sim, todos temos pavor de um dia ouvir.
Até nisso tive sorte: não tinha bata branca, estava com o rabo sentado sobre a secretária com um fantoche na mão e enquanto fazia voz de roberto a brincar com o meu filho, observava-o com olhar clínico. E fui eu que perguntei – Dr. Nuno, é autismo…?
Era sim. Autismo e mais um par de botas de patologias associadas.
Passaram mais de 25 anos desde essa primeira consulta. Terei hoje uma postura diferente perante a adversidade, contudo a mesma convicção, e sim, o mesmo médico.

Autismo para mim nunca foi um bicho-papão. Inicialmente talvez, porque sabia ao que ia. Sou-era uma menina informada e não era um palavrão que teria de buscar numa qualquer enciclopédia (o Dom Google não fazia parte das nossas vidas, vivia-se sem internet naqueles tempos…) a minha atitude foi sempre muito positiva, no sentido que arregacei as mangas e encarei o bicho olhos nos olhos: “Anda cá autismo, o que queres fazer com o meu bebé?, anda cá que eu estou aqui preparadinha para lutar contigo!!” E foi uma luta de uma vida. Mil batalhas ganhas muitas mais as perdidas, as que rapidamente esquecemos a cada nano-conquista.
Porque é nesse sorriso do nosso filho que se ganha fôlego para a seguinte, e a outra depois.

Dizem que o autismo só se consegue diagnosticar depois dos dois, três anos. Perdoem-me a petulância, mas discordo veementemente.
Primeiramente (deixem-me que vos diga a quem não sabe), por não existirem quaisquer testes médicos ou clínicos que se façam: O autismo é diagnosticado por observação. E observadora eu sou. Não o fui só com o meu filho. Noto em qualquer outra criança pequena que tenha aquele twist no comportamento que dispara a minha atenção. Porque é disso que se trata: Autismo é uma perturbação de comportamento.
Há um olhar diferente nestes miúdos, uma desatenção, um gelar de alma que se instala quando o sentimos.
Sim. Batam-me, mas uma mãe ou um pai sabe. Pode não querer senti-lo, muito menos verbalizá-lo, mas no mais recôndito e escuro recanto do seu ser, a dúvida instala-se, um medo frio e escorregadio, pespega-se nas entranhas, queremos a tecla do undo, do delete, do escape, mas não foram ainda inventadas para este intento.
Este é um filho diferente dos irmãos, dos primos, dos filhos dos amigos. Todos o notam (é um facto incontornável nas relações de grupo), mas só alguns têm a capacidade, a coragem de o falar abertamente, de chamar a atenção dos próprios pais quando eles se fecham na oportuna concha. Não é um processo ligeirinho. Normalmente começa o cochicho calado. O olhar de esguelha. O acusar descomplacente para com uma postura que não entendem, mas lá que são rápidos no gatilho do julgamento…. Peço-vos: não o façam. E explico.
Há pais que escolhem o caminho da negação. Este filho é tímido, é distraído, é assim… Há pais que viram as costas e recusam aceitar. Há pais que ficam e lutam com armas que nem sabiam que tinham. Há pais que escolhem o caminho da eterna busca pela cura. Cura? Está bem… Querem um facto? Aqui o têm: os cientistas (ainda) não a descobriram. O que podem encontrar sim, são mil formas de melhorar a qualidade de vida desse filho e da família.

Dizem os livros que autismo será a diferença mais difícil de gerir no seio de uma família. Demorei muito a aceitar como facto a dor que me provocava esse afastamento familiar e dos amigos que achava serem próximos. E é um grito que não deixo calar em mim. Se calhar deveria apaziguá-lo…
Acredito firmemente que se as pessoas em geral soubessem-souberem realmente o que é um indivíduo com autismo, como se movimenta e pensa, se o respeitassem-respeitarem na sua essência, se se dessem-derem de coração para conhecê-lo, não teriam “medo” – porque é natural ter-se, sentir-se medo do que se desconhece, e a primeira imagem que se retém, de tantos mitos urbanos que circulam, não é simpática.

É preciso querer-se olhar uma outra vez e com mais atenção para esta população.
Urge em mim essa vontade. Que o façam.
Sabia? São pessoas doces e meigas, muitas vezes dadas e terrivelmente genuínas, tanto que o são que muitos lhe chamam anjinhos e outras coisas fofinhas. São gente, como todos nós, têm o mesmo direito que nós os tais normaizinhos de pisar este chão que é de todos, sabia? Eu já o aprendi da forma mais complicada. Não precisa ser assim para si…
Familiares e amigos, que se distanciam destas pessoas e suas famílias nucleares, não sabem como perdem uma oportunidade estranha de se elevarem, de crescerem.
Vou-lhe contar um segredo, quer?
Aprendemos com eles a verdadeira essência da vida, a resposta que todos buscamos – o SIMPLES. Eles têm um *descomplicómetro* associado que lhes confere uma poesia na forma de ver e viver a vida que a nós, os formatados para a normalidade, nos desconcerta tão completamente. Afinal andamos a complicar a nossa existência para quê??

Como mãe e como observadora, gostaria ainda de assistir neste mundo ao momento em que familiares, amigos da família, pessoas que circundam estes lares, onde existe uma pessoa com autismo, fossem simplesmente agraciados com uma estranha generosidade e tivessem a verdadeira intenção de perceber como estas pessoas vivem cada momento do seu dia, como os pais e cuidadores resolvem problemas que apenas aparentam ser de somenos importância e podem ser (são) calamitosos. Mais. Deixassem de culpabilizar quem (os pais) não tem nem a culpa nem a vontade que isso aconteça. Mais ainda. Esta é a fase em que estas famílias mais precisam de apoio, não de um dedo apontado.

Sabe uma chuvada de Verão, que poeticamente achamos ter um cheiro romantizado a terra molhada, e essa ser a única emoção a ser acordada? Pode ser dramático para alguém cuja hipersensibilidade o faz sentir dor.
A chuva não dói – que disparate – poderá pensar, não é?
Faça-me lá a vontade e caminhe comigo: vá, dispa o casaco, fique de braços nus, descalce-se, abra os braços a uma nova descoberta e deixe os simpáticos pingos quentes da primeira chuvada tomarem conta de si. Caminhe à chuva, vá, mas esqueça-se da sensação que lhe é prazeirosa e tente entrar na mentalidade autística de que só (me) ouve falar.
Aferir a dor de outrem é algo que considero impossível – sempre afirmo isto – mas tente concentrar-se em que cada minúsculo pingo de chuva é uma alfinetada, um golpe de faca, o que seja que imagine que lhe doa a si, mas sinta que lhe dói. E muito. Então? Ficou com vontade de chorar? De gritar? Não acha (ainda) terrivelmente intrusivo?… Certo, vamos subir de nível neste jogo. Agora acrescente que todos os sons foram magnificados amplificados a raiar a distorção e consegue ouvir todas as conversas de todas as pessoas, todos os ruídos de portas, carros, sirenes, pássaros, até o ar condicionado da loja do outro lado da rua, todos os cães a ladrar, os passos de todas as pessoas, mesmo os grilos lá no fundo, do outro lado do quintal. Não chega… Pense nos cheiros que lhe entra pelas narinas. Quais? Então, o do suor do seu próprio medo, aquele que nem deu conta de que se apossou de si, o do pêlo molhado do cão que está do outro lado da rua, o do cozinhado queimado da tia Micas que sai pela janela, o do horrendo dos caixotes do lixo da rua detrás, e sim, o da terra molhada pela primeira chuvada de Verão. Podia continuar, mas vá, pense só que agora não pode abrir os olhos e acabar este exercício. Nunca. Nunca em toda a sua vida…. Diga-me: e agora já gritaria? Eu creio que sim. E nem falei das texturas complexas, das cores que ferem e doem, das palavras que passam por cima da cabeça e fazem fila para entrar nas suas ideias….

Autismo existe. É fodido, sim. É apenas o que lhe peço. Olhe para o lado. Cada vez tem mais amigos, vizinhos, primos e conhecidos a terem um bebé com autismo, não é? Então pare para ajudar. Nem que seja a entender. Vá, não seja fodido para com o autismo.

Ana Martins, é a autora de diversos artigos e livros, entre os quais se conta: Autista, quem…? Eu?, e a fantástica mãe do Pedro.

O que acontece se fizermos o contrário do que pensamos?

“Ai se fosse comigo”, “filho meu não fazia isso”, “era o que me faltava fazer-lhe todas as vontades”. Estas são frases que constantemente digo, e que a maioria das pessoas sem filhos dizem.

Porque escrevo este texto para um blogue que, apesar de nada ter a ver comigo, sigo?
Escrevo em jeito de desabafo de algumas frustrações que me tiraram um pouco a vontade de um dia ter filhos.

Tudo o que vejo ao meu redor assusta-me imenso, crianças sem regras e com comportamentos desproporcionais. Pior do que isso é começar a ser encarado como normal numa sociedade onde já se aplica o velho provérbio “em terra de cegos quem tem olho é rei”. Um(a) menino (a) que não dê em drogado ou em delinquente e que se vá safando na escola já é visto como um bom exemplo. Oiço pais a dizer “Ele não se porta mal mas é distraído, a professora diz que ele até aprende bem mas não faz os trabalhos. De manhã custa-lhe a levantar e fica na cama, de resto até diz que é educado. Bem, podia ser pior…” não entendo este discurso, as crianças deviam sair de casa educadas, a escola serve para aprender.

Eu acredito piamente que a educação de uma criança requer muita dedicação, não se pode ser educadora em part time, com isto não quero dizer que os pais não devem trabalhar (longe disso) mas se há coisa que as crianças aprendem à nascença é a manipular e acaba-se cedendo a caprichos por várias razões: comodidade, cansaço, vontade de ver as crianças, o pouco tempo que podemos estar com elas, contentes. A disciplina é dura para quem a transmite e para quem a recebe mas acredito que trará aos pais uma paz vitalícia.

Eu até me considero uma pessoa muito ligada às tecnologias mas abomino a nova geração tecnológica sem aprendizagem de maneio. Serei assim tão retrograda? Sei que tenho 27 anos, sou licenciada em Tecnologias da Comunicação, e não tenho paciência para dependentes do mundo virtual, principalmente pensar que os meus filhos podem vir a ser.

Serei eu capaz de estar num restaurante, com o meu marido e o meu filho ou amigos, e para querer conversar em paz e sossego meter-lhe um tablet na mão aos 2 anos? Por estas dúvidas que ainda me assolam vou levando a minha vida sem pensar se serei ou não uma boa mãe.

Cátia Barreira

 

Cátia Barreira é jornalista, directora da Raízes – Trás-os-Montes e Alto Douro em Revista e  membro da direcção da associação Utrapassar Barreiras– mulheres empreendedoras de Trás-os-Montes e Douro.

Um no céu, outro na barriga!

Sempre olhei para uma gravidez sem grandes intercorrências e posterior nascimento de um ser tão perfeito a vários níveis como um verdadeiro milagre.
Desejava um dia poder vivê-lo na primeira pessoa, e o ano de 2013 deu-me essa oportunidade.
Não consigo ter noção de como a minha experiência foi influenciada pelo facto de ser médica, mas talvez tenha vivido cada passo da gravidez de forma um pouco mais ansiosa, talvez por saber ao pormenor teórico tudo o que pode correr mal.
Quis o destino que eu fosse uma das bafejadas com intercorrências graves (tal como a minha bebé), e que ficasse sem ela 6 dias após nascer, com apenas 26 semanas e 441 g.
O vazio que fica, depois de tantas expectativas e formatações mentais de que a vida mudará tanto depois do primeiro rebento, é algo indescritível.
Preparámo-nos para o resto da vida com uma filha que não viria para casa connosco.
Tudo estava orientado para mudanças radicais, mas nada mudou excepto nós.
Confesso que nos primeiros dias perguntava a mim mesma quando me deixariam tentar engravidar de novo.
Mesmo com os riscos inerentes, com a forte possibilidade de tudo se repetir queria tenta.
Logo percebi que, provavelmente, o meu corpo demoraria a recuperar e talvez ainda assim recuperasse mais rápido do que a minha mente.
Mas depois do luto (que apenas se transformou em saudade), a ideia foi ganhando contornos mais definidos na minha cabeça, e o impulso já não era o de substituir o silêncio deixado por uma filha, com outro filho. Era a de preencher um lugarzinho novo que se tinha criado no meu coração, ao lado do cantinho que seria para sempre ocupado pela minha filha.
Era continuar a ser mãe (de uma forma mais convencional, se possível), porque já me via nesse papel mesmo que de uma forma que ninguém ensina.
Nesta segunda vez, a experiência de uma nova aventura da maternidade começou muito antes de ver um teste positivo de gravidez.
Havia uma possibilidade de não poder voltar a engravidar, pelo que a cada mês que passava sem o conseguir havia ali um dia em específico em que me ia abaixo.
A razão dizia-me que era normal, a emoção já era mais difícil de controlar.
Quando aconteceu, começou a montanha russa que ainda hoje, às 35 semanas de gravidez, vivo.
Iria o pequeno embrião aguentar-se?
Pela elevada taxa de abortos iniciais, guardei para mim.
O pai soube 3 dias depois, quando senti uma vontade incontrolável de começar a viver a felicidade.
Mas deveria vivê-la? Deveria “fingir” que não existia até ter certezas, de forma a proteger-me de mais dor caso algo corresse mal?
Decidi desde início que este meu segundo filho não merecia contenções pelo que já tinha passado, e que ia ter direito ao “pacote” de sentimentos completo.
Se algo corresse mal, assim continuaria, e teria um lugar tão especial no meu coração como a irmã.
Foi uma decisão importante, que me deixou começar um diário de gravidez, renovar planos, começar a comprar coisinhas para o seu enxoval, saber que iria conseguir montar um quarto novo. Não queria proteger-me de sentir, mas para além deste imenso amor por uma criaturinha tão pequena, o medo (o pânico!) estava sempre presente. Incontrolável, na maior parte das vezes. Mas disfarçável…
Durante estes quase 8 meses, não houve vez que fosse à casa de banho e não ficasse nervosa para ver se teria alguma hemorragia.
Não houve dor, por mais pequena que fosse, que não me trouxesse a angústia de não saber se estava tudo bem.
Não houve ecografia que não fosse antecedida por vários dias de ansiedade, a imaginar sempre mil e um cenários possíveis de coisas que pudessem estar mal. Não houve dia em que não medisse a tensão (por vezes 2 e 3 vezes, tendo-me rido quando a médica me recomendou no início do 3º trimestre “Agora, se conseguir, tente medir a tensão pelo menos 2 vezes por semana”).
Muitos dias em que achei que a barriga estava demasiado grande ou demasiado pequena, demasiado descaída ou pesada.
Muitos dias em que confundi cãimbras irradiadas na barriga com contracções prematuras, muitos pesadelos com bolsas rotas prematuramente, muito medo do meu corpo me voltar a “falhar”.
Não, não me sinto culpada de nada, mas não posso deixar de assumir o facto de que o meu corpo me falhou numa das coisas que lhe deviam ser mais naturais.
Pergunto-me, por vezes, como será viver uma gravidez tranquila, e ser abençoado com o nascimento de um amor maior, e ele chorar nos nossos braços.
Pergunto-me se, independentemente da sua experiência prévia, haverá alguma grávida realmente sem stress, sem medos.
Talvez não… Talvez a minha experiência não seja assim tão diferente da da maioria.
Sei que nunca terei uma gravidez sem pânico, mas se tiver direito ao prémio final, como espero, tudo será compensado…e espero brevemente dizer-vos por experiência própria (cheia de olheiras, despenteada, e com a roupa bolsada), que ser mãe de um bebé que quis ficar pela Terra é o melhor do mundo!
 Ana Matos

Ana Matos é mãe da Leonor e do Leonardo, médica e autora do blog Our Mad World

Eu aqui mando (infelizmente) pouco

Há lá nome mais apropriado para um blog sobre estes assuntos do que este? Na
maternidade, em especial nos primeiros filhos, tudo isto é um caos, mas um caos fofinho.
Daqueles tipos de caos que não nos apetece ainda mandar da janela mas quase, já nos
apetece fugir para a longe. Pelo menos é isso que sinto com a M., que já conta com 2 anos e
quase 5 meses.
Sou, tal como a Sandra e a Bárbara, “mãe de 1a viagem” (há lá expressão mais parva) e
tenho em comum pelo menos com a Sandra o facto de ter conhecido o meu marido e pai da
M. no Twitter.
A M. nasceu antes dos filhos delas e uns meses após eu ter casado.
Se eu achava que ia gozar os primeiros meses ou primeiro ano de casada sem crianças
estava bem enganada.
Temos sempre aquela ideia de que o 1º filho vai ser fantástico e que o vamos tentar educar
como achamos certo.
Facto é, pelo menos por aqui, que eu mando muito pouco.
A M. tem-me pouco respeito quando percebe que tem as costas quentes com avós e tios
pelo meio.
Se eu digo que não a uma coisa há sempre alguém que vai dizer “oh coitadinha, vá lá, deixa
lá…” ou mesmo ela olha para mim do alto/baixo dos seus caracóis e pede “pojo fazê ixo,
mamã?” e eu acabo por encolher os ombros se perceber que não tem problema para ela.
Ela é uma criança que dificilmente se percebe que apenas tem 2 anos e 4 meses. Eu que
sou a mãe às vezes dou comigo a pensar que esta criatura só pode ser mais velha, até
mesmo pelas conversas que já a ouço ter.
A minha casa, que eu gostava tanto de ver organizada, 80% das vezes parece um campo de
batalha e quando não parece é porque acabou de ser limpa ou passou o vendaval Mãe.
A minha personalidade tem essa característica. Gosto de ser organizada, demais às vezes e
isso é difícil quando temos uma criança.
Ser mãe é fantástico mas algumas vezes apetece-me tirar férias ou pôr uns fones nos
ouvidos para não ouvir chamar por mim de minuto a minuto.
Mas não o troco por nada, ainda que tenha de usar um forte corrector de olheiras e beber um
balde de café diário porque intravenoso dá nas vistas. 🙂