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Coração Gordo

Este podia ser um texto sobre problemas cardiovasculares, hipertensão, alimentação saudável ou exercício físico. Mas não é. Também podia ser um texto cómico – ou que tentasse sê-lo – mas não é. É sobre a história mais bonita que eu podia ter a felicidade de viver e é também uma declaração de amor.

Faz quase três anos que o meu coração engordou. Engordou, dilatou, ganhou espaço que eu apenas suspeitava que pudesse ter. Pouco tempo depois do nosso Encontro, o N. confiou em mim e confiou em Nós para me apresentar aos seus três Príncipes. Duas meninas e um menino por quem eu também me apaixonei. E neste caso foi mesmo à primeira vista, ou ao primeiro encontro, e esse Amor tem vindo a crescer desde então, ao ritmo a que nós todos crescemos e construímos, a cada dia, a nossa Família. De sorriso aberto e olhos brilhantes, e com aquele ar curioso e expectante e um pouco intrigado de quem não sabe o que esperar, receberam-me nas suas vidas e nos seus corações, e desde então até agora, não há um dia que eu não me sinta abençoada, privilegiada, por eles me deixarem fazer parte das suas vidas.

Estamos juntos apenas dois dias de duas em duas semanas, em média, como acontece com tantas outras famílias “do” divórcio. Mas eu sou Madrasta deles e eles são meus enteados – meus ente(am)ados – todos os dias. Todos os dias, cada gesto meu é feito também a pensar neles. Como escrevi no texto que levou a Sandra e a Bárbara a abrirem-me a porta do seu doce caos, eles “merecem que eu faça tudo o que estiver ao meu alcance para construir um lar para eles, e ajudá-los a crescer para serem pessoas plenas e a saberem que podem voar para onde e como quiserem, e que vão encontrar sempre um porto de abrigo ao nosso lado, à espera deles.” E é isto.

Imagino que muita gente se questione e duvide que seja possível amar de forma genuína os filhos de outra pessoa. Ou que estranhe tudo isto… E não deixei de ouvir ou de intuir, com um tom ora de admiração ora… não sei bem do quê, um ou outro “não sei como és capaz” ou “acho que não conseguia”, ou ainda o corriqueiro e cheio de fé “valha-me Nossa Senhora” (ou a sua variante também muito boa, “Nossa Senhora me livre e guarde”). A única resposta que tenho é “como não?” Como é possível amar uma pessoa e não amar aquilo que tem… aquilo que lhe é mais querido e precioso? Nunca foi sequer uma opção para mim. E foi fácil fazê-lo. Simples. Por esse motivo.

Como em muitas histórias de Divórcio onde não são só os pais que se divorciam, os “nossos” Príncipes tinham todas as desculpas e todos os motivos do mundo para serem miúdos problemáticos, difíceis. Mas não são. Como o N. diz, estão a dar aos pais uma lição, ou várias. E a mim também, que gosto e estou sempre disposta a aprender, não só um novo ponto de crochet ou uma palavra nova, mas também a Viver. Assim, com letra maiúscula. A viver com uma maturidade que não tinham que ter, com uma sensibilidade que lhes é inata e que cresce de dia para dia, e com uma inteligência que desabrocha e se reflecte nos mais pequenos detalhes. Por isto vivemos num misto de emoções, entre a preocupação e a ansiedade e a culpa, e a tranquilidade e a confiança de que não há motivos para preocupações. São miúdos fantásticos, e é uma alegria e um prazer vê-los crescer e simplesmente ser. Tornar-se.

Esta tem sido a minha história, e haverá milhares e milhares de outras diferentes, por isso não tenho conselhos para dar a quem de repente ficou com o coração dilatado e ganhou uma nova família. O que posso dizer é que, quando digo que é simples, não quero dizer que seja imediato e que eu tenha todas as respostas na mão. Não tenho. Longe disso. A qualquer momento se cometem erros e há que aprender com eles, mas posso dizer que se partirem nesta Aventura de coração aberto, as coisas acabam por ir ao seu lugar e as respostas chegam duma forma ou de outra. Posso dizer com algum orgulho que nunca ouvi um “Não és minha mãe”. Acho que este será o maior pesadelo de qualquer madrasta ou padrasto… O segredo? Não agir como se fosse. É estranho sentir-me Mãe sem o ser, confesso, mas não sou. É preciso ter sempre presente que, felizmente, eles têm uma mãe e um pai que os adoram e fazem o melhor que sabem para o ser, e o bem deles passa por cultivar e valorizar essa relação e contribuir para ela como for possível. Como me deixarem. Mas também não sou uma irmã nem uma amiga nem uma tia. Sou a Madrasta deles, que os adora, e que é uma espécie de terceiro adulto que se sente responsável por eles, que só quer o bem deles, e com quem eles podem sempre contar para o que for preciso, mesmo que não saibam o que é preciso. Se partirmos para esta Aventura com o tal coração aberto, cheio, é possível encontrar um equilíbrio entre a doçura e a autoridade, sem se ser autoritário. Não esquecer que o tempo que temos juntos é precioso e não pode ser desperdiçado com pequenas coisas que não importam. Deve ser aproveitado sim, para as pequenas coisas que importam, como ficar à mesa na conversa depois de cada refeição, ou jogar às cartas, ou fazer um puzzle, ou ver um filme todos enroscados no sofá, ou dar um abraço apertado e muitos muitos beijinhos sempre que nos apetecer. Trata-se de cultivar o carinho e a atenção uns pelos outros. Porque um fim-de-semana passa a correr. O tempo escorre-nos pelas mãos e é doloroso ver chegar a hora de se irem embora quando ainda mal chegaram… Passo duas semanas de braços abertos…

O meu coração engordou e multiplicou-se, e sem ter tido dores de parto, tenho mais três corações fora do peito.

Ana é a autora do blog Confissões de uma procrastinadora em recuperação

Ah e tal e o sentido da vida

Ora bem, o que faz uma rapariga solteira – e boa rapariga, como eu – sem filhos num blog sobre maternidade e coisas afins? Não sei. Talvez daqui a umas linhas consiga ter uma resposta. A verdade é que aquilo de que eu gosto mesmo é de perguntas. Sou filósofa (sim, a sério!) e trabalho com crianças. Sim, filosofia. Crianças. Filosofia para crianças. Com crianças. Sim, no 1º ciclo. E em escolas públicas. Inacreditável, certo? Não ajuda se eu disser que um dos meus lemas de vida é “não te esqueças de pensar em seis coisas impossíveis antes do pequeno-almoço”, pois não? Tenho conhecido muitas crianças , muitos educadores e professores – e pais. Pais preocupados com a educação do seu filho, outros que estão nem aí. Entre o excesso e o defeito, conheço muitos pais conscientes do seu papel e disponíveis para ouvir os seus filhos. É verdade, as crianças têm um papel a dizer sobre aquilo que é a sua vida. Mais do que possam imaginar. Quando uma criança de 3, 4 anos verbaliza perguntas como “porque é que não posso fazer aquilo que quero?” ou sabe dizer “este boneco é só de brincar, não é a sério” – está a manifestar a sua forma de ver o mundo e a interrogar-se sobre coisas como a autoridade, a liberdade, o real e o imaginário. À medida do seu mundo, a criança vai-se interrogando. Procura respostas. Como as pessoas crescidas fazem todos os dias, verdade? IMG_0032 E como todos andamos à procura de respostas, porque é que não admitimos isso perante os nossos filhos? Dizia-me uma vez um pai que evitava as perguntas do filho pelo receio de não ter respostas para ele. “Eu sou pai, deveria saber”. Sim, é pai, mas também é uma pessoa à procura, a construir o sentido da vida. Com certezas e dúvidas, com perguntas e respostas. Mostrar à criança, desde muito cedo, que somos “só” (pessoas) humanas acontece em pequenas coisas: permitindo um espaço de liberdade, com regras e diálogo sobre aquilo que se passa. Com transparência na palavra e na acção. Com a honestidade de quem sente que pode errar e nem por isso deixa de persistir. E existir. Ser. Joana Rita Sousa Filósofa, (não) professora de filosofia (para crianças). Mais aqui: http://joanarssousa.blogs.sapo.pt Ilustração: My Simple Life

Be my guest! 

Com tantas visões sobre a maternidade, tantas experiências únicas, tantas histórias para contar decidimos abrir a porta do Sweet Caos…

Por este motivo, vamos ter alguns posts escritos por convidados. Vai ser bom!

Gostamos de pessoas. Gostamos de opiniões. Gostamos de ouvir.

Para nós, é um prazer termos pessoas tão especiais a partilhar as suas experiência/histórias/opiniões neste nosso cantinho.

A acompanhar cada post de convidados vamos ter uma ilustração exclusiva da My Simple Life (obrigada mais uma vez pelo trabalho fantástico). 

 Por isso, já sabem, sempre que virem uma ilustração gira é porque temos mais um maravilhoso convidado.

O primeiro convidado, a entrar no nosso pequeno universo, é a Joana Rita Sousa, Filósofa, (não) professora de filosofia (para crianças).

Porque no mundo das dúvidas que é esta história da maternidade ela garante-nos que ‘Perguntar é Fixe’. Nós perguntámos e ela disse: Fixe! 😀 

Obrigada mais uma vez pela participação. 

Espero que adorem, tanto como nós, o post da Joana. 

 Não percam, é já no próximo Domingo.