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Contabilista precisa-se

Sim, eu sei que é abusivo aproveitar o blog de uma amiga para vir publicitar as minhas pendências pessoais, mas notem, eu já tenho contabilista, não é como se estivesse desesperado com o IRS de 2016, que já entreguei mas no qual as finanças encontraram divergências, e fosse o caso de o meu contabilista não dar conta do recado tenho ainda muitos amigos capazes de preencher um modelo 3 ou mesmo o 22, entenda-se, mas nenhum que consiga resolver o meu maior problema de contas pois falta-lhes a especialização. Já procurei nas páginas amarelas, que, pasmo geral, ainda existem na internet, já telefonei para a Ordem e até para a autoridade tributária, mas continuo na mesma.

O meu problema é simples: preciso de alguém que faça a contabilidade das horas, pode converter em dias, que eu levo a adormecer os meus filhos, e que no dia do juízo final, o meu entenda-se, interceda por mim junto de quem é de direito para que esse mesmo tempo, praticamente inútil em que, não por minha opção, não pude fazer nada nem mesmo dormir, seja creditado de novo no meu livro (em pequeno aprendi que o nosso futuro já está todo escrito por isso depreendo que exista um livro, bem grande) e eu seja enviado de novo para baixo para gozar o tempo que me é devido, sim para baixo pois com tanta privação de sono e horas de embalo nas costas posso fazer qualquer coisa no futuro que o meu lugar no céu está certamente assegurado.

Sei que estamos na silly season, mas isto não é uma questão menor. Toda as semanas são incontáveis as horas que eu despendo com as minhas duas crianças. Sei que ao ter participado na sua concepção eu, de forma mais ou menos imposta e mais ou menos implícita, aceitei uma série de termos, cláusulas e obrigações, às quais estou vinculado até à morte, e não me arrependo. Atenção, eu não quero deixar de adormecer os meus filhos, aliás, acho um verdadeiro milagre que um bebé de 6 meses adormeça no meu colo só porque sim, porque está no meu colo e é meu filho. Neil Amstrong foi à lua. O super-homem consegue voar pelo céu. O Hulk fica forte e verde e eu adormeço crianças!

Não é todos, calma, apenas os meus. É escusado virem agora com os vossos rebentos todos para a minha porta, nem vou abrir, eles não me conhecem, o meu cheiro será estranho, por isso duvido que se deixem adormecer na segurança dos meus braços. Mas não é incrível que um ser tão pequeno, que ainda mal se habituou ao sol e à chuva, não sabe falar e só com dificuldade leva uma colher à boca, se deixe adormecer nos nossos braços de um quase estranho? 
Por isso calma, não quero renunciar a este privilégio, mas às vezes gostava de ser menos bafejado pela bonança, 15 minutos de embalo são mais do que suficientes, não preciso de beneficiar desta benesse durante mais do que uma hora e várias vezes por noite. Mas, enfim, estou resignado ao facto de que não posso mudar esta triste sina. Não podendo eu mudar isto, há por aí alguém que possa ir anotando as minhas horas de serviço e interceda para que depois sejam devidamente creditadas em tempo para tarefas mais profanas? Obrigado. ​

Paulo Couto é pai da Olívia e do Xavier, é empresário e realizador com alma de viajante. É também o nosso Pai convidado no Sweet Caos.

SER PAI

O P é de PROTEGER. Proteger dos maus, dos parvos, da estupidez, da má ignorância, das doenças, dos mal-estares, dos bandidos, dos corruptos e da corrupção, das tristezas e das desilusões. Enfim, de tudo o que faça mesmo mal mas deixando espaço para darem umas turras, porque assim é que se aprende a sério.

O A é de AMAR. Incondicionalmente e intemporalmente. Acho que é mesmo a minha função principal, amá-los até não poder mais.

O I é de INSTRUIR. Como alguém disse, um perito é alguém que sabe como não fazer. Eu sou perito nisso e tento instruir os meus filhotes para que o sejam também, pelo menos sem ter de passar por todos os falhanços por que eu passei.

O resto é tentar deixá-los perceber que tenho um orgulho imensurável em todos eles, e que não consigo ficar chateado muito mais de umas horas.

João Geada
Pai da Joana, do Manel, da Maria do Mar, da Francisca e do Guilherme

As palavras por dizer!

Vão ao médico. Frequentem a consulta de planeamento familiar todas as semanas. Usem preservativo, dispositivo intrauterino, o anel, o adesivo e o implante. Espermicida inseticida e óleo de fígado de bacalhau. Laqueiem as trompas e façam uma vasectomia. Deixem crescer todos os pelos do corpo, não usem desodorizante, fio dentário ou pasta dentífrica. Não tomem banho se preciso for! Abstenham-se raios. Cuidem da vossa saúde, não tenham filhos, por favor.

Agora olha para cima, volta atrás e lê tudo do inicio. Posso trata-lo por tu? Chegados aqui, vou assumir que sim, somos amigos.

O que ninguém nos diz antes de sermos pais, é que depois de ter um filho viveremos para sempre no medo de o perder. E não é metáfora, não me refiro a perder um bebé que cresce e depois é do mundo, nada disso, perder perder, ver sofrer ou até morrer. Porque depois da euforia do nascimento nasce essa angustia, incerteza amarga, será que o vou deixar cair, estou a pegar bem, ainda parto alguma coisa, e se ele sufoca a dormir, a morte súbita é um risco, e no carro, vou mudar de carro para um mais seguro, e comprar uma cadeirinha com triplo airbag e atmosfera protetora. Porque agora tudo pode acontecer, e ele é tão frágil, que o único objetivo das nossas vidas é protegê-lo, com a nossa própria vida se for preciso. E não estou a exagerar.

E não acontece nada, ou acontece tudo. Nasce prematuro e os pais acordam de imediato para um limbo de muitas semanas de dúvidas, alimentadas por esperanças. Nasce bem e saudável mas um simples vírus, uma poeira de merda de tamanho microscópico, atira a vida do recém nascido para um novelo de indecisões, onde os pais se embrenham até à ponta do último fio, incapazes e impotentes, jurando dar a vida pelo ser que acabaram de conhecer. Correndo bem tudo se esquece, mas fica o medo, esse fica sempre.

Eles crescem. De bebés se tornam crianças, as saudades que sentimos do primeiro estado, e à medida que crescem qualquer percalço é um apocalipse. Da gripe à varicela, dos cinco pontos na cabeça à perna partida, do choro por perder um amigo à asma asfixiante. 

Ver um filho sofrer é um desastre de proporções inimagináveis. É uma dor na alma, um sobressalto constante. Um filho longe e um telefone a tocar é pólvora ao lado de fogo. E nada nos prepara para isto, nem as imagens da Síria vista no jornal da noite.

Por isso deixo o conselho, que não é ensinamento, mas sim aviso. Na preparação para o parto ninguém nos ensina a sofrer, ninguém nos avisa que vai ser assim para sempre, em todos os dias da nossa vida, ter filhos é ter medo de os perder.

Ainda aqui estás, posso continuar a tratar-te por tu? Vou dizer-te o que os teus outros amigos calaram. Não estás disponível para sofrer, todos os dias, pelos filhos? Volta ao inicio deste texto. Lê todo o primeiro parágrafo, repetidas vezes, até ao fim.

Há sangue suor e lágrimas no caminho da felicidade.

 

(Este texto é escrito ao abrigo do antigo e do novo acordo ortográfico. Num país que criou muitos mestiços eu gosto de misturas)

 

Paulo Couto

2 de Julho 2017

Paulo Couto é pai da Olívia e do Xavier, é empresário e realizador com alma de viajante. Vejam alguns dos seus trabalhos aqui



Os créditos da foto são mais uma vez da Marta Marinho, mulher do Paulo e excelente fotógrafa.

Às vezes parece que vivo dentro de um filme italiano

Vocês já ouviram a expressão PDI, não já?
Mas sabem qual o seu verdadeiro significado?Não, não tem puto a ver com a idade; PDI designa o Potencial de Discussão Interno e mede de forma rigorosa e científica a probabilidade de haver confusão dentro de uma família.

Às vezes parece que vivo dentro de um filme italiano.
Daqueles com muita gente a falar ao mesmo tempo, pessoas a esbracejar, gritos, brigas, confusões, mal-entendidos, queixinhas, mas também com beijos, abraços e muito amor.
Felizmente vivemos numa versão 2.0 do filme do Ettore Scola: somos “Bonitos, Asseados e Bons” – valha-me a modéstia…
Mas para perceber melhor como funciona a dinâmica de uma família numerosa como a minha (2 adultos, 4 crianças e uma cadela) criei um modelo matemático que facilita melhor a compreensão por parte daqueles que não têm filhos.

Imaginem estes cenários em que as letras (p.ex. “A”) designam cada filho, e os números se referem a cada possibilidade de discussão.
Numa família com um filho quais são as probabilidades de haver confusão?
Apenas quando a criança (A) confronta os pais (1).
Temos portanto uma situação onde se pode perder o equilíbrio; PDI = 1.

Agora imaginem um casal com 2 filhos. Pode haver granel quando a criança (A) confronta os pais (1) ou o irmão (2) e quando a outra criança (B) confronta os pais (3) ou o outro irmão (4).
Em suma, temos quatro ocasiões em que a coisa pode descarrilar; PDI = 4.

Chegados aqui vocês já perceberam que a escala de progressão matemática não é tão simples e linear como pensavam.
Não, quando se tem 2 filhos não duplicam as probabilidades de haver molho – quadruplicam!!!

Para uma família ser considerada numerosa, deve ter pelo menos 3 filhos.
Vamos fazer as contas?

Podemos ter chatice quando a criança (A) embirra com os pais (1), com um irmão (2) ou com o outro irmão (3); quando a criança (B) embirra com os pais (4), com um irmão (5) ou com o outro irmão (6); quando a criança (C) embirra com os pais (7), com um irmão (8), ou com o outro irmão (9).
Mas como onde há 3 pessoas há grupinhos, vamos ter ainda Potencial de Discussão Interna quando se juntam o A e o B contra o C (10), o A e o C contra o B (11) e o B e o C contra o A (12).
Em resumo, numa família com 3 filhos temos 12 ocasiões onde a casa se pode transformar num campo de rugby; PDI = 12.
É o triplo de uma família com 2 filhos. Ah pois é…

Não vos vou maçar com as contas para uma família com 4 filhos como a minha mas as últimas estimativas aponta para um valor mínimo de PDI = 30.

Dentro de um filme italiano

Se estão a desanimar ao ler isto e a fazer scroll com uma mão enquanto a outra procura o número da clínica para marcar a laqueação de trompas ou a vasectomia para não correrem riscos, esqueçam.
O meu objectivo não é desmotivar-vos, pelo contrário; é explicar-vos que se vocês têm 1 ou 2 filhos, a vossa vidinha é um passeio no parque. Pode ser giro e fofinho, mas é para meninos.

Ter 4 filhos foi de longe a melhor coisa que me aconteceu.

É verdade que quando temos (mais) filhos as alegrias se multiplicam e as tristezas se diluem, mas é muito mais do que isso.
Os miúdos têm todos a sua personalidade, o seu brilho, e todos acrescentam diferença, alegria e côr à família.
É muito (mesmo muito) frequente eu olhar para a minha 4ª filha e pensar “ainda bem que a tivemos”.
Se eu tivesse só 3 filhos a minha família seria fixe, claro que sim.
Mas ao mesmo tempo, se eu não tivesse tido a minha 4ª filha a minha família seria tão mais pobre…

Agora vá, ide e multiplicai-vos 🙂

 

Fernando Caeiro é pai de 4 crianças (3 raparigas e 1 rapaz) e autor de As crianças são muito infantis.
Histórias verdadeiras, ficcionadas e vice-versa. Cheias de amor, humor e sarcasmo passadas dentro de uma pão-de-forma imaginária.

Carrinha Sweet Caos

Esta alegria (tremenda) que é ser pai de uma menina

Começo por esclarecer que este texto é dedicado a todos os pais de meninas.
Por isso, não espantará que tenha escolhido para o título aquilo que escolhi.

Assim, posso dizer com segurança que ninguém se deve iludir quanto à escolha do título.
Ou seja, se o acaso nos tivesse presenteado com um rapaz, hoje seria igualmente hiper feliz e um pai extremamente babado, escreveria textos sobre isso, e tudo o mais, mas a grande verdade, e quem me conhece bem sabe isto ou se não sabe talvez se lembre, é que sempre quis ter uma menina! Sempre. Daí que quando soube da notícia tenha literalmente explodido de felicidade e exultado pela maravilha com que a vida tinha acabado de me brindar. Foi uma alegria tremenda esta de ser pai de uma menina.

Não sei se fui influenciado pela história que a minha mãe me contou desde sempre e que terminava com a “pobrezinha” a julgar que tinha dado à luz uma Inês quando afinal tinha acabado por lhe sair na rifa um Martim, com tudo o que isso implica e que não é coisa pouca.

(Vicissitudes de não se saber o sexo do bebé enquanto ele está na barriga da mamã)

O que sei de cor é que sempre gostei mais de meninas do que de meninos. Isto pode não querer dizer nada, mas também pode querer dizer muito. Redondo mas intencional.

Sempre tive mais “melhores amigas” do que “melhores amigos”.
Talvez se possa igualmente justificar por ter crescido rodeado de tias e com uma ligação muito forte à minha mãe, com quem vivemos sozinhos (eu e o meu irmão) durante muitos anos, não sei ao certo, mas também não interessa muito para este pequena rábula.

Quando comecei a pensar que um dia gostaria de ser pai, foi sempre para ser pai de uma menina. Nem sequer ponderava a hipótese de sair um menino. Tinha a convicção plena de que a sorte me iria agraciar com aquilo com que sonhava há muito, em particular desde que casei.
Quando era mais novo (comecei ainda com 17) fui animador de campos de férias durante algum tempo. E, à data, na viragem do século, no início do milénio, tínhamos sempre de começar o período de formação pelos mais novos, pelos pequenotes com 6, 7, 8… por aí. E assim foi. As minhas meninas eram as “minhas princesas”. Fazias-lhes penteados. Ia dar-lhes um beijinho de boa noite. Contava-lhes histórias. Ajudava-as a escolher a roupa para o dia. Tudo. Tratadas como pequeninas princesas que eram na verdade.

Depois o sonho foi-se alimentando sozinho.

Pai de uma menina
Sempre sonhei com isto de ser pai de uma menina. De ter a minha própria princesa depois de tantos anos a “adorar” as princesas dos “outros”. Queria muito ter a sorte de a ver crescer. De a pentear. De lhe mudar as fraldas. De a adormecer no meu colo. De lhe dar banho e secar o cabelo. De escolher a roupinha e os ganchos (embora não o faça tantas vezes quanto gostaria), tudo a condizer… ah, claro, e as fitas para o cabelo, tremendamente importantes. Tudo. Não pode falhar nada. Afinal de contas estamos a falar de uma princesa que um dia destes reclamará o seu trono natural de rainha e eu depois não sei o que faço à minha vida. Entretanto já realizei e continuo a realizar diariamente toda uma série de sonhos que alimentei durante anos. E isto é suficiente para me deixar perceber como é linda a vida!

Sou pelas palavras. Sou incondicionalmente pelas palavras e pela magnífica e magnificente arte de as ordenar para dar sentido à (minha) existência.
Amo a escrita e as palavras quase tanto como amo a vida. E penso. Penso muito. Gasto, para não dizer que perco, muito tempo a pensar nas coisas. E penso em texto. Em frases. Em vírgulas e pontos. Em encadeamentos e na materialização de tudo o que são pensares e reflexões e ideias e sensações e tudo o mais. Sinto-me um privilegiado exactamente por isso. Por poder e conseguir escrever sobre muitas das coisas que me passam pela cabeça. Por ter a sorte de conseguir neste amontado de coisas encarreirá-las da forma como quero e idealizo.

E isso traz-me até aqui. Até à partilha. Até à sorte de ser convidado para falar sobre uma coisa tão incrível e tão grande como é a paternidade. E o tempo que vos podia continuar a falar disto multiplicar-se-ia pela vontade que tenho de falar disto com seja quem for que tenha a ousadia e a paciência de me ouvir ou ler a falar sobre isto.

E porquê? Porque nada disto faz sentido se não for partilhado com outras pessoas que possam estar a passar pelo mesmo processo. Pelas mesmas alegrias. Pelas mesmas dúvidas e incertezas e, mais do que qualquer outra coisa, pelo mesmo tipo de sensações que tantas vezes acabam por morrer na surdina dos pensamentos que se envergonham quando chega a hora de saírem à rua. Porque é difícil, se é.

E acreditem que há momentos de particular dificuldade, de angústia, de sofrimento, de desespero. Momentos em que tens de tomar decisões, em que tens de agir, rápido, sem tempo para grandes reflexões, grandes pensamentos, nada. É instinto. Puro. E, regra geral, quando amamos alguém da forma impossível e incomparável como amamos os nossos filhos, acertamos quase sempre.

Confiem. Acreditem. Partilhem. Perguntem. Sonhem. Alcancem. Encontrem. Comentem. Contem. Relatem. Descrevam. Aprendam. Esqueçam. Perdoem.

Vejam para lá da natural condição de pais. Sim, de pais. Este texto é para vocês.
Aprendam a ver para lá deste incrível privilégio que temos e que se traduz na possibilidade incrível de poder moldar e esculpir num outro ser humano a nossa vida, ou a ideia que temos da mesma. Ser mãe é único. Incomparável. Inigualável. E isto é indesmentível e indiscutível. Mas ser pai é e tem de ser visto da mesmíssima forma, sem qualquer tipo de comparação pretensiosa com o insubstituível papel que a mãe representa na vida de um(a) filho(a).

A vida é isto tudo. Não percam tempo. Vivam-na. Mimem e acarinhem os vossos filhos. Qualquer criança que sente o amor dos pais é – e esta afirmação é incontestável – uma criança feliz. Como pai não posso querer mais. Isto e saúde e tenho a vida no sítio certo. Na hora certa. Com as dificuldades que isso acarreta, mas com a certeza de que o caminho é por aqui.

Martim Mariano atualmente desempenha as funções de gestor de redes sociais no Grupo Impresa. É jornalista. Blogger nos tempos livres. Escritor. Filho. Marido. Pai. Irmão. Papéis muito distintos mas que vão sendo norteados por uma coerência transversal a todos eles. A autenticidade.
Não gosto de dormir mal. Gosto muito de ler. Escrever é vício. Viver é prazer. Ler é descansar os olhos e aquecer a mente. Co-autor do blog Agora Nós os Três, e autor do blog O Que Dizes Tu?! Escreve porque, diz, não sabe fazer mais nada a não ser isto e amar a família que construiu.

Escolhas!

Há algumas semanas fiquei desempregado.

Perder o emprego é stressante. Preocupas-te com a tua família. Duvidas das tuas capacidades. Preocupas-te com o dinheiro. Afinal de contas, tens um filho para criar.

O meu recém-terminado desafio profissional correu tão bem ou tão mal, que logo na semana seguinte recebi 3 ofertas de emprego. Assim. Out of the blue. E das boas. Mas como não há bela sem senão, todas elas fora do país.

Que fiz?

Recusei sem hesitar. E agora pensam vocês: “Que grande besta. Recusa empregos super bem pagos em NY”. Verdade. Fi-lo. Guilty as charged. Fi-lo e fá-lo-ia de novo, por uma simples razão: o meu filho. Não há dinheiro que compense o facto de não poder estar com ele diariamente. Ou quase. Lirismo? Talvez. Romantismo? Provavelmente. E uma monstruosa dose de egoísmo, pois custar-me-ia tanto ou mais a mim estar distante do que a ele.

“Mas algo há-de surgir em Portugal. A economia está a crescer! Há tanta empresa tão boa, todos os dias surgem novos negócios. Tu tens experiência e conhecimento. Tens trabalho feito para apresentar.”

E aqui o Vasconcelos desata a procurar e a concorrer. Ingénuo…

De todas as respostas a candidaturas que enviei, recebi a mesma resposta. Over-qualified. “Obrigado, és um tipo espectacular, tens um CV impressionante, mas… estávamos à procura de alguém mais júnior, mais jovem, tu entendes [inserir aqui uma série de estrangeirismos cool e cenas]” ou “Adorávamos ter-te na nossa equipa, mas infelizmente não temos budget.” [Eu aqui leio alguém baratinho, de preferência elegível para algum programa do IEFP]. Se calhar, se incluir na carta de apresentação o termo “mature”, esta malta achará mais piada.

Tudo isto para dizer o quê? Para dizer que estamos num país/mundo que obriga as pessoas a afastarem-se dos filhos para os poderem criar. Ou a afastar as crianças da família pela mesma razão, sejamos trabalhadores da construção ou executivos de topo. Eu tenho a sorte de ainda ter uma “almofada” que me vai permitindo continuar à procura de emprego de forma mais ou menos tranquila; há quem não o possa fazer. Há quem esteja pior. Conheço vários casos. Todos conhecemos, infelizmente. Em qualquer dos casos, não é justo. Não é justo para os pais, para as crianças, as famílias, ou sequer para o país.

Não, não pretendo um emprego perfeito, com salário milionário e à porta de casa. Pretendo, sim, um emprego que me dê algum gozo e permita não me preocupar em esticar o dinheiro até ao final do mês e, ao mesmo tempo, desfrutar da paternidade.

Bem vistas as coisas, se calhar peço algo bem mais difícil que um simples emprego milionário…

Vasco Vasconcelos

Pai com uma mente curiosa trabalha na área do marketing e das redes sociais. Sigam o Vasco no Twitter – @vascocv

Mimos

É meu. É meu meu meu. Mordo-o quando me apetece. A sério que sim. Nas bochechas, no pescoço, nas lindas roscas dos pulsos. É meu e ninguém tem nada com isso. Se ando com ele ao colo? Claro. Não o incomodo a perguntar se sabe caminhar, diz-me a experiência científica, feita de observação, que por mais que eu insista ele não se vai levantar. Mordo-o quanto baste, dou-lhe colo sempre que pede ou a mim me faz falta, sendo poucos os minutos que sobram desta equação. O mais novo tem três meses a irmã vai fazer quatro anos. Aplico as mesmas regras com pouca distinção, só mesmo o colo é que, por questões físicas, não suporto por tanto tempo. Mas até me esforço bastante.

Serão mimados todos os dias, cada dia mais, com carinho e atenção (que em dias de maior cansaço falta, e depois é preciso acumular para ressarcir as crianças dos cuidados indevidamente perdidos, porque um filho não se contenta com alguma atenção, quer toda e é devida).

E brincar. Num mundo perfeito eu não voltava a trabalhar para poder passar os dias em brincadeiras com eles. Provavelmente ficava cansado ao fim de algumas horas, e a clamar por algum tempo de trabalho. Mas essa experiência é necessária, porque todos os dias pais e mães tem a experiência oposta: vinte e quatro horas de trabalhos e uma noite de sono, se a matemática o permitisse, para sonhar com horas de brincadeira com os filhos (a matemática e a razão nada querem com as relações de amor, e só isso explica como conseguem alguns pais fazer tanto com tão pouco).

É urgente amar, acarinhar e mimar. Precisamos de crianças livres, amadas e mimadas, muito mimadas. Eu quero que os meus filhos sejam mimados, porque é que a palavra adquiriu uma conotação negativa? Precisamos de adultos mimados e amados, chega de macambúzios de semblante carregado de sinais de indiferença. O meu filho não precisa de aprender a chorar, precisa de saber que quando ele precisar, e seja qual for a razão, eu estarei lá para o pegar ao colo, tenha ele três meses ou trinta anos.

Charles Manson, Jack the Ripper, Adolf Hitler, Josef Stalin, Lucky Luciano, Jesse James, Timothy McVeigh ou Aníbal Cavaco Silva, já li biografias de todos e em nenhuma consta uma frase sobre o excesso de mimo e carinho recebidos na infância.

Paulo Couto

22 Março 2017

Paulo Couto é pai da Olívia e do Xavier, é empresário e realizador com alma de viajante.

Os créditos da foto são da Marta Marinho, mulher do Paulo e excelente fotógrafa. Vejam aqui o trabalho da Marta!

Não há um manual de como ser pai!

Há pouco mais de quatro anos, tornei-me um pai. Após nove meses de gravidez eu deveria estar preparado, certo? Errado. Independentemente da tua profissão – construção, atendimento ao cliente, negociação de reféns – paternidade é o trabalho mais difícil que existe.

Nos anos anteriores à entrada de cena do Francisco, eu preocupava-me comigo mesmo, o que, nos dias de hoje, é provavelmente normal para alguém de 20 ou 30 e poucos anos de vida.

Tornar-me um pai mudou-me. Todos disseram que assim seria. Toda a gente me disse que tudo seria diferente. “Dorme agora”, disseram … “Sai agora”, disseram eles. Eu estava preparado para as mudanças superficiais (nunca fui muito de sair, de qualquer forma). Para o que eu não estava preparado era para pontapé emocional em cheio nos queixos que a paternidade te dá.

Podem vasculhar as prateleiras marcadas como “paternidade/maternidade” em qualquer livraria e encontrarão uma infinidade de livros sobre a paternidade. Podem pedir conselhos aos vossos pais, mães, tias, primos e amigos; mas independentemente de como nos preparemos para a viagem, a paternidade é algo que só se conhece depois de experimentar em primeira mão.

Os livros podem dar-vos uma ligeira vantagem, mas as palavras numa página não dizem o que sentes quando o teu filho chora horas a fio com cólicas; quando nascem os primeiros dentes; quando fazem cocó no chão, durante a transição para o pote. Livros não dizem como reagir quando a tua criança faz uma birra monumental no supermercado, apenas porque sim.

Sabem porquê? Porque não há uma maneira certa, uma fórmula.

Paternidade traz grandes momentos de auto-dúvida. Como um pai que durante alguns meses ficou em casa, às vezes eu sentia-me numa ilha. E nem sempre podes confiar num livro para te dar a resposta. Costumo refletir sobre o pai que sou e pergunto-me se estou a fazer a coisa certa.

O ponto aqui é que podem ler tantos livros quanto quiserem e conseguirem (tempo livre é algo que rareia quando se é pai de uma criança pequena), que vocês nunca estarão realmente preparados, e não há mal algum nisso. A paternidade é uma daquelas coisas que se vai aprendendo à medida que se vai andando.

Eu confio em ter sido criado com uma boa bússola moral e valores sólidos, que serviram e servem como uma fundação, para me incentivar e guiar-me a tomar as melhores decisões (longe de mim dizer que sou perfeito, ok? Não sou. De todo). Será que as decisões vão ser sempre as mais acertadas? Não. E está tudo bem.

 

Nota do autor: apesar de tudo, ser pai é o melhor que me aconteceu e a experiência mais maravilhosa (e difícil) que já enfrentei. Por mais birras, choros, dúvidas, corridas para as urgências a meio da noite, um simples sorriso, abraço, uma nova competência ou graçola do Kiko fazem com que tudo isso fique para a traz e valha completamente a pena. Pensemos: se assim não fosse, a raça humana estaria extinta há milénios. Sim, sou um pai babado e a gargalhada do meu filho é o que mais feliz me faz neste mundo.

Vasco Vasconcelos

 

Obrigada Vasco pela partilha e um grande beijinho ai para casa, principalmente ao astronauta-jedi Kiko!  😀

 

Não sou Jedi, mas adoro ser Pai!

O Neo da parentalidade

matrix

Filha,

Estás quase a fazer dois anos, o dia do teu nascimento foi algo que desfrutei a cada segundo como quem se delicia a comer a sua fruta preferida sem que se importe do que podem pensar do seu ar de satisfação ou figura, julgo que devem ser privilégios concedidos por ser pai pela segunda vez. Do teu irmão, quando me apercebi da sua existência como ser humano neste mundo já tinham nascido os dois dentes da frente e já apareciam as primeiras febres e até já se aventurava em gatinhar a casa toda.

Contigo foi totalmente diferente, a preparação foi milimétrica, tudo tinha bateria carregada, desde que tirasse fotografias ou gravasse vídeo, só não levei tripés e luzes porque me pareceu exagerado, mas também julgo que a tua mãe não iria achar piada. Tudo ocorreu com normalidade e tu começaste a tua jornada das primaveras, os dias passaram a ser semanas e as semanas rapidamente passaram a ser meses.

Ao longo desse tempo sempre tentaste enganar-nos com as tuas manhas de bebé, mas filhota, eu sou o Neo a desviar-se das balas, tu ainda estavas a pensar fazer das tuas e já estava eu pronto para resolver a situação. Ter esta capacidade fez com que desfrutasse mais estes dois primeiros anos, que para te ser sincero, não são os meus favoritos no que toca a bebés, mas um dia explico-te porquê.

It’s a new dawn, it’s a new day

nina
Tal como a Nina interpretou a música que dá titulo a este segmento, também eu sinto que ninguém me pode tirar este momento que está começar filha. Sim a começar minha pipoca.

Até aqui foi garantir que não te aleijas, que comias a horas, que não tinhas a fralda cagada, que dormias bem, mesmo que isso implicasse que eu não. Mas a partir de agora, está a começar.

É a partir de agora que começas a dizer mais que uma palavra que se entenda, já começas a conjugar essas palavras e a fazer micro frases. Já tens noção de quem te rodeia, não pelos nomes, mas por Pai, Mãe, Mano, Gato, Panda, “ó-ó”. Já sabes que ando de mota e vês-me, do alto da tua janela, a passar na estrada dos “Pópós” como os gostas de chamar. O som de uma mota desperta em ti uma alegria imensa, quando me despeço de ti dizes “xau”, quando pergunto onde vai o mano, respondes sem hesitar, “cola”.

O mundo começa a apresentar-se divertido para ti, tens um espírito aventureiro, sobes cadeiras como quem sobe uma montanha, arriscas brincar com o “gato” quando sabes que te vais aleijar. Corres mais que o Bolt mas cais no segundo a seguir com a graça de uma pétala, choras como se o teu coração estivesse despedaçado para de seguida dizeres duas palavras, “Pai, cola.”. O meu colo é o teu porto seguro, sabes que nele tudo passa.

Adora esta fase, adora tudo nela, as tuas birras, as tuas manhas alegres, a tua perceção do outro e saberes que podes brincar culpando-o dos teus erros, inocentes. Gosto quando és a minha sombra mas adorei mais quando tinhas medo da tua. Adoro não ter 5 segundos de silêncio e os filmes serem vistos em bocados de 30 segundos com pausas de 10 minutos. Adoro quando dizes “banho” quando chego a casa de um dia de trabalho, já sabes que te vou dar banho. Detestas que te ponha água nos olhos, ficas aflita, mas com mais algum treino ficas apta para fazeres apneia em alto mar.

Adoro esta fase, adoro estes momentos.

May the force be with you

force
Como disse à tua mãe no dia do teu nascimento, se não fossem as mulheres, já estávamos extintos à imenso tempo. Eu acredito que tu vais honrar todas as mulheres que antes de ti andaram neste mundo e que servirás de exemplo para as vindouras, sinto isso, não me perguntes porquê, simplesmente sei. Vejo em ti uma força diferente, vejo que és destemida, curiosa, “móza” como tu te chamas quando te pergunto o que tu és, respondes sempre “móza”. Continua assim, teimosa.

Vais entrar na fase de descobrir e falar imenso, vais perguntar muitas coisas, vais querer ainda mais atenção. Vou estar aqui para isso, sei que até aos 5/6 anos o tempo vai voar e nunca mais vou ter esta oportunidade.

Estou ansioso: por dizeres coisas que me vão fazer chorar a rir, por saber que fizeste algo que ninguém estava à espera, por perceber que tens outro ponto de vista, por teres uma inocência malandra que não consigo resistir. Pega nessa tua força e torna estes próximos anos inesquecíveis, porque os dois que passaram já deixam saudades profundas e a lagrima a escorrer pela cara.

Dá-lhe com força que eu vou adorar, não sou nenhum Jedi mas eu aguento, afinal ser Pai é mais difícil.

Pedro Fonseca

Obrigada pelo testemunho Pedro e beijinhos à pipoca 😀

“Pais cansados e crianças felizes vivem aqui”

Muita gente que conheço, muitos daqueles de quem fugi ou corri atrás na escola, está nesta fase a ser pai/mãe pela primeira ou segunda vez.
Estamos todos a criar famílias e a povoar o mundo (como se houvesse falta de gente cá).

Não há muito tempo eu estava num restaurante em Almancil, no Algarve, quando vejo uma placa junto ao imenso vidro da cozinha: “ Aqui moram pais cansados e crianças felizes”.

 

restaurante

Foi depois de jantar e é incrível como o álcool ainda me permitia ler.

Desconfiei sempre dos pais de crianças recém-paridas que, ao final de alguns meses, dizem que a vida pouco mudou.
É como ser atropelado por um camião TIR, na auto-estrada, esperar 10 minutos levantar e seguir viagem para mais uma noite de copos. Não faz sentido. Provavelmente o camião passou ao lado, ou só de raspão.

Não quero fazer figura de censor, mas qualquer progenitor sem nódoas de comida na roupa, ombros e braços, olheiras até aos cotovelos, cabelo por pentear e que, a partir do primeiro ano, saiba onde está o comando da televisão, passou ao lado do camião. Ficou sem história para contar, e este camião não faz marcha-atrás.

Deixem-se ser atropelados, pela vossa saúde.

Nota importante: o restaurante é excelente, acho que isso também é importante.

 

Paulo Couto é pai da pequena Olívia, empresário e viajante.

Todas as ilustrações dos convidados são: My Simple Life