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Não sou Jedi, mas adoro ser Pai!

O Neo da parentalidade

matrix

Filha,

Estás quase a fazer dois anos, o dia do teu nascimento foi algo que desfrutei a cada segundo como quem se delicia a comer a sua fruta preferida sem que se importe do que podem pensar do seu ar de satisfação ou figura, julgo que devem ser privilégios concedidos por ser pai pela segunda vez. Do teu irmão, quando me apercebi da sua existência como ser humano neste mundo já tinham nascido os dois dentes da frente e já apareciam as primeiras febres e até já se aventurava em gatinhar a casa toda.

Contigo foi totalmente diferente, a preparação foi milimétrica, tudo tinha bateria carregada, desde que tirasse fotografias ou gravasse vídeo, só não levei tripés e luzes porque me pareceu exagerado, mas também julgo que a tua mãe não iria achar piada. Tudo ocorreu com normalidade e tu começaste a tua jornada das primaveras, os dias passaram a ser semanas e as semanas rapidamente passaram a ser meses.

Ao longo desse tempo sempre tentaste enganar-nos com as tuas manhas de bebé, mas filhota, eu sou o Neo a desviar-se das balas, tu ainda estavas a pensar fazer das tuas e já estava eu pronto para resolver a situação. Ter esta capacidade fez com que desfrutasse mais estes dois primeiros anos, que para te ser sincero, não são os meus favoritos no que toca a bebés, mas um dia explico-te porquê.

It’s a new dawn, it’s a new day

nina
Tal como a Nina interpretou a música que dá titulo a este segmento, também eu sinto que ninguém me pode tirar este momento que está começar filha. Sim a começar minha pipoca.

Até aqui foi garantir que não te aleijas, que comias a horas, que não tinhas a fralda cagada, que dormias bem, mesmo que isso implicasse que eu não. Mas a partir de agora, está a começar.

É a partir de agora que começas a dizer mais que uma palavra que se entenda, já começas a conjugar essas palavras e a fazer micro frases. Já tens noção de quem te rodeia, não pelos nomes, mas por Pai, Mãe, Mano, Gato, Panda, “ó-ó”. Já sabes que ando de mota e vês-me, do alto da tua janela, a passar na estrada dos “Pópós” como os gostas de chamar. O som de uma mota desperta em ti uma alegria imensa, quando me despeço de ti dizes “xau”, quando pergunto onde vai o mano, respondes sem hesitar, “cola”.

O mundo começa a apresentar-se divertido para ti, tens um espírito aventureiro, sobes cadeiras como quem sobe uma montanha, arriscas brincar com o “gato” quando sabes que te vais aleijar. Corres mais que o Bolt mas cais no segundo a seguir com a graça de uma pétala, choras como se o teu coração estivesse despedaçado para de seguida dizeres duas palavras, “Pai, cola.”. O meu colo é o teu porto seguro, sabes que nele tudo passa.

Adora esta fase, adora tudo nela, as tuas birras, as tuas manhas alegres, a tua perceção do outro e saberes que podes brincar culpando-o dos teus erros, inocentes. Gosto quando és a minha sombra mas adorei mais quando tinhas medo da tua. Adoro não ter 5 segundos de silêncio e os filmes serem vistos em bocados de 30 segundos com pausas de 10 minutos. Adoro quando dizes “banho” quando chego a casa de um dia de trabalho, já sabes que te vou dar banho. Detestas que te ponha água nos olhos, ficas aflita, mas com mais algum treino ficas apta para fazeres apneia em alto mar.

Adoro esta fase, adoro estes momentos.

May the force be with you

force
Como disse à tua mãe no dia do teu nascimento, se não fossem as mulheres, já estávamos extintos à imenso tempo. Eu acredito que tu vais honrar todas as mulheres que antes de ti andaram neste mundo e que servirás de exemplo para as vindouras, sinto isso, não me perguntes porquê, simplesmente sei. Vejo em ti uma força diferente, vejo que és destemida, curiosa, “móza” como tu te chamas quando te pergunto o que tu és, respondes sempre “móza”. Continua assim, teimosa.

Vais entrar na fase de descobrir e falar imenso, vais perguntar muitas coisas, vais querer ainda mais atenção. Vou estar aqui para isso, sei que até aos 5/6 anos o tempo vai voar e nunca mais vou ter esta oportunidade.

Estou ansioso: por dizeres coisas que me vão fazer chorar a rir, por saber que fizeste algo que ninguém estava à espera, por perceber que tens outro ponto de vista, por teres uma inocência malandra que não consigo resistir. Pega nessa tua força e torna estes próximos anos inesquecíveis, porque os dois que passaram já deixam saudades profundas e a lagrima a escorrer pela cara.

Dá-lhe com força que eu vou adorar, não sou nenhum Jedi mas eu aguento, afinal ser Pai é mais difícil.

Pedro Fonseca

Obrigada pelo testemunho Pedro e beijinhos à pipoca 😀

“Pais cansados e crianças felizes vivem aqui”

Muita gente que conheço, muitos daqueles de quem fugi ou corri atrás na escola, está nesta fase a ser pai/mãe pela primeira ou segunda vez.
Estamos todos a criar famílias e a povoar o mundo (como se houvesse falta de gente cá).

Não há muito tempo eu estava num restaurante em Almancil, no Algarve, quando vejo uma placa junto ao imenso vidro da cozinha: “ Aqui moram pais cansados e crianças felizes”.

 

restaurante

Foi depois de jantar e é incrível como o álcool ainda me permitia ler.

Desconfiei sempre dos pais de crianças recém-paridas que, ao final de alguns meses, dizem que a vida pouco mudou.
É como ser atropelado por um camião TIR, na auto-estrada, esperar 10 minutos levantar e seguir viagem para mais uma noite de copos. Não faz sentido. Provavelmente o camião passou ao lado, ou só de raspão.

Não quero fazer figura de censor, mas qualquer progenitor sem nódoas de comida na roupa, ombros e braços, olheiras até aos cotovelos, cabelo por pentear e que, a partir do primeiro ano, saiba onde está o comando da televisão, passou ao lado do camião. Ficou sem história para contar, e este camião não faz marcha-atrás.

Deixem-se ser atropelados, pela vossa saúde.

Nota importante: o restaurante é excelente, acho que isso também é importante.

 

Paulo Couto é pai da pequena Olívia, empresário e viajante.

Todas as ilustrações dos convidados são: My Simple Life

Super-Pai à distância

Quando a Bárbara me pediu para escrever este texto adiei a sua escrita até ao dia de hoje.

Porquê?
Simplesmente porque não queria pensar sequer na distância que mais uma vez ia ter dos meus filhos. Guardei esse momento para hoje, em pleno voo, onde me distancia mais de 7000 km de quem amo.

Ser pai à distância é duro, muito duro mesmo. Quem me conhece sabe que ser pai é a profissão que eu gostava de ter. Ter nascido numa grande família, em que todos nos damos bem, enraizou em mim um enorme sentido de família.  Estar longe dela é, sem dúvida, uma dor enorme para mim.
Se há uns anos atrás me perguntassem se algum dia emigraria sem eles, responderia categoricamente que nunca me passaria isso pela cabeça.
Infelizmente a vida troca-nos as voltas e há quase 3 anos fui obrigado a emigrar para Angola.

Podia dizer que cada vez estou mais habituado a isso, mas infelizmente cada dia que me despeço dói cada vez mais. Um dor indescritível, algo nos falta.

Aquele beijo de boa noite, aquele resmungar de não quero isto ou aquilo, aqueles sorrisos que me enchem de orgulho nos filhos que tenho.

O Tomás, agora com 9 anos, é sem dúvida aquele que menos aceita a minha ausência. Ainda não compreende que o faço também por ele, para lhe poder dar aquilo que acho que qualquer criança tem direito – uma vida com o menor sacrifício possível.

Já me questionaram e apontaram o dedo de eu lhe fazer falta mais do que tudo o resto. Estaria mentindo se não dissesse que já me fiz essa pergunta a mim mesmo centenas de vezes.
Vale a pena a distância?
Vale a pena o sacrifício que todos estamos a fazer?
Claro que essa conversa já a tive com a minha esposa algumas vezes e infelizmente ainda tem que ser, principalmente para o bem deles.

Quando vim pela primeira vez, o Tomás ainda não tinha 7 anos. A primeira despedida não custou muito, acho que ele pensava que eu ia ali e vinha já. Quando se começou a aperceber que eu ia ficar muito tempo  fora começou a reagir de uma forma algo estranha para mim. Recusava-se a falar comigo no skype, ou quando falava era uma mensagem relâmpago do género “Ola pai, xau”. Chorava em circunstâncias diversas em que algo o fazia lembrar de mim.  Estando longe, essas atitudes parece que ainda nos doem mais, que somos nós que estamos a provocar estas situações. Quando ele não quer falar connosco, questionamos-nos se os estamos a “perder”, se já não têm saudades nossas, se não querem saber de nós.
Acredito hoje que era mais uma forma de defesa dele perante a minha ausência.

A Inês, agora com 15 anos, como é natural,  sempre compreendeu melhor a minha vinda para fora. Talvez por isso, foi sempre a que custou mais dizer adeus. Sempre que vem ao aeroporto deixar-me despede-se com uma lágrima no canto do olho.
Sem dúvida que nos dias de hoje ser emigrante é bem mais fácil do que no tempo dos nossos pais e avós. Graças às novas tecnologias podemos estar “junto” deles de várias maneiras e sentidos. Felizmente que hoje em dia podemos falar e ver os nossos filhos quase todos os dias (infelizmente há dias sem internet).

Comunico-me com eles sempre que posso, de forma a tentar que o nosso dia a dia seja o mais normal possível.
Com a Inês, já com acessos a Skype, facebook, whatsapp e afins , durante o dia todo é bem mais fácil. Trocamos diversas mensagens durante o dia e partilhamos um pouco o dia um do outro.  Sempre fomos muito ligados e mesmo com a distância acho que consigo manter esta nossa ligação forte.

Como qualquer emigrante, acho que nos agarramos ao trabalho de manhã à noite para tentar esquecer um pouco a ausência da família. Quando eu digo que os piores momentos, quando estou fora, são os fim de semana costumam ficar admirados e não compreender. Estes dias são aqueles que estamos mais frágeis, porque temos mais tempo livre e mais tempo para pensar na família e sentir o quanto nos fazem falta.

Mas como é que algum pai aguenta esta distância dos filhos que tanto ama ou vice versa?
Porque tem uma mulher, aliás uma super mulher, que faz de pai e mãe e que ajuda a que a nossa ausência seja menos dolorosa tanto para os miúdos como para mim próprio.  Uma mãe que me mantém envolvido como pai em tudo que é possível.
Infelizmente a opção de eles emigrarem comigo, no país que estou é uma impossibilidade. Não posso ser egoísta e pensar só em mim. A saúde e educação dos meus filhos estão acima de qualquer decisão que posso tomar e mais uma vez em consenso com a minha mulher achamos que este sacrifício que  todos estamos a ter é o mais acertado.

Pai à distância? Sim, serei pai em qualquer circunstância e todos os sacrifícios valem a pena pelos nossos filhos.

Despeço-me como sempre me despeço dos meus filhos quando venho de viagem….. – “Até já….”

 

Júlio é o super-pai da Inês e do Tomás que divide os seus meses entre Portugal e os Palop.

Todas as ilustrações dos convidados são: My Simple Life

Mais um barco! 

Hoje, eu e Olívia encontramos este barco naufragado na praia.
A Olívia ficou muito contente porque não estava cheio de refugiados.
O senhor Silva, que estava na praia ao nosso lado, também ficou contente porque o barco não estava cheio de refugiados.
O Sr. Silva não gosta de refugiados, e tem algumas razões:

– eles não são “nossos” e nós temos de ajudar os “nossos” primeiro

– eles tem outra religião e outra forma de pensar

– eles nunca pagaram um euro de impostos em portugal

– a europa não tem dinheiro para os ajudar

– se os ajudarmos vamos nós pagar isso e já chegou o BPN

– se os acolhermos, daqui por 20 anos seremos regidos pelas leis deles

– eles tem outra religião

– se não nos convertermos ao Islão eles vão-nos decapitar

– temos de ajudar os “nossos” primeiro

– eles não são da nossa religião

– nem sequer são completamente brancos

– eles não são “nossos”

– eles tem outra religião e uma língua e tez esquisitas

A Olívia tem pouco mais de 2 anos e, talvez por ser tão pequena, não vê grande diferença entre o Sr. Silva e um refugiado. Colocar um ou lado do outro para ela seria igual: são os dois desconhecidos e ela não confia em desconhecidos, sejam eles brancos ou pretos.
O Sr. Silva já é adulto, e aprendeu a aceitar todos aqueles que se lhe assemelham, mas em relação aos restantes continua muito desconfiado.
O Sr. Silva tem também muitas características em comum com o Sr. Santos, o Sr. Pereira, o Sr. Ferreira, o Sr. Oliveira, o Sr. Costa, Rodrigues, Martins, Sousa, Fernandes, Gonçalves, Gomes, Lopes, Marques e tantos outros.

A saber (gosto muito de fazer listas):

– vê muita televisão

– lê diariamente os jornais de referência (A Bola, O Jogo e Record)

– é uma pessoa informada

– já viveu muito

– nunca saiu de portugal, ou se saiu foi na lua de mel onde atravessou um oceano para se enfiar num resort a beber marguaritas

– nunca, mas mesmo nunca, pôs os pés num país muçulmano

– para ele quem tem piercings (excepto raparigas no lóbulo da orelha), tatuagens (excepto homens que estiveram no ultramar), cabelos compridos (excepto raparigas de novo) são drogados que não fazem nada vida a não ser roubar

– acha que os Muçulmanos são todos militantes do Estado Islâmico e a missa deles é ao sábado como os Testemunhas de Jeová e os Élders
Ser pai é estar constantemente confrontado com desafios. A Olívia questiona-me a toda a hora.
Porquê que não podemos ir para o parque quando está a chover.
Porque é que o pai tem de ir trabalhar.
Porque é que a mãe está cansada.
Porquê que não pode beber café.
Porque é que o Sporting perdeu outra vez.
Porquê porquê porquê.

Vou conseguindo dar resposta às dúvidas dela, umas mais difíceis do que outras, mas por esta altura fico muito contente por a Olívia ter apenas 2 anos. Ela não vê as noticias e por isso eu não vou ter de explicar porque é que o Sr. Silva não quer ajudar as pessoas que estão a fugir da guerra. Porque é que ele não quer ajudar os meninos que morrem à fome. Porquê que subitamente, são palavras dela, ele ficou tão preocupado com os sem abrigo nacionais quando, ainda a semana passada, dizia que eram um bando de vagabundos que não quer trabalhar.
Mas a Olívia está a crescer e estas perguntas vão acabar por chegar.
Paulo Couto é pai da pequena Olívia, empresário e viajante. Hoje fala-nos de um assunto grave e sério mas já teve um blog onde demonstrava todo o seu peculiar senso de humor e nós também temos saudades disso 🙂

Lado lunar

Sou pai. Ou melhor, sou “bipai”. Ela com oito anos, ele com quatro. Assim sendo, falo do alto da minha (falta de) experiência: não sei o que raio é ser um bom pai. Nem sei o que engloba essa definição. E não tenho qualquer tipo de conselho que não seja: faz o que achas que deve ser feito. Posto isto, e porque a vida não é apenas cor-de-rosa (a não ser que sejas um unicórnio), aqui vai uma experiência de uma cor mais verdadeira. 

Viver com medo

 A partir do momento em que o exame te anuncia que aí vem prole, o medo chega também a galope. Na verdade, acho que foi o primeiro sentimento que tive quando descobri que seria pai. Medos grandes e medos pequenos. O medo que a gravidez não decorra como esperado (acontece mais vezes do que se pensa); o medo que o parto não corra pelo melhor; o medo de deixar cair o bebé; o medo que ele tropece e se esbardalhe do gigante escorrega do parque; o medo que alguém os leve; o medo que ela não encaixe na nova escola; o medo das saídas à noite; o medo que não encontrem a sua vocação; o medo que só tenham futuro além fronteira; o medo que não encontrem quem os ame; o medo, simplesmente.

Receio, temor, cagufa, inseguranças… É tudo medo, e não deve haver receio (lá está) de utilizar a palavra.

 

A incapacidade de perceber o conceito de “dormir”

 Os meus dois filhos têm/tiveram uma relação estranha com o “dormir”. Ela, até aos 17 meses, acordava todas as noites. Mais do que uma vez. Sim, todas as noites. Durante 17 meses. A quantidade de neurónios que queimei à conta da miúda é imensurável. A minha filha fez-me mais burro, portanto. Certa noite parei de contar à décima primeira vez em que despertou… Por isso, para mim e para a mãe, é perfeitamente normal acordar às 3 da manhã (e às 4, 5, etc.). Nunca pensei que isso aconteceria, mas de facto habituamo-nos a tudo.

Se com ela o dormir melhorou, com ele estamos ainda a lutar para estender o sono além das 6h45. É essa a hora de alvorada em casa, pelo menos para o pirralho e para um dos adultos. Já experimentámos fazer serões, cansá-lo, massagens, leite morno ao deitar… Não adianta. O puto tem um relógio interno que não falha e ainda antes das 7h está a postos.

Uma vez, na escola dela, pediram-me para escrever num coração o que era ser pai, e posteriormente colocar num mural. Junto dos “é a melhor coisa do mundo” ou “é maravilhoso”, estava “é não saber o que é dormir e, mesmo assim, gostar deles”.

 

O barulho é o novo silêncio

 Experimentem dizer a uma criança de quatro anos que faça silêncio para se conseguir ouvir as notícias. É o mesmo que pedir a um elefante para cantar ópera. Não dá. O barulho constante é, assim, o novo silêncio. Habituas-te, como em tudo. Se é fácil? Não, não é. E, por vezes, a falta de paciência leva-te a gritar (quem nunca o fez que ponha o dedo no ar). Ou seja, tentas combater a falta de silêncio fazendo ainda mais barulho… Tu, o adulto, a comportar-te como um puto. Sacanas, pá. O que eles nos fazem.

 

Brinquedos e casa arrumada

 Certa vez tive a casa arrumada. Depois tive filhos e não sei o que é isso. Antes deles virem não podia ver algo fora do sítio. Cedo percebi que, ou deixava isso para trás, ou não fazia mais nada que não fosse arrumar. E brinquedos espalhados? Em certas noites limito-me a empurrar com os pés os brinquedos para junto das paredes, por forma a não os pisar quando tiver de acordar pela terceira vez.

 

Rochedo de borracha

 Eles olham para nós como um rochedo, um porto seguro. Olham para cima, e julgo que o farão mesmo quando forem mais altos que nós. Somos o suporte, os que sabem, os que decidem. E eu faço-me de forte, de quem percebe, de quem toma as decisões corretas. Se eles soubessem que não percebo nada de nada, que sou o mais inseguro de todos. Sou um rochedo de borracha. Molinho, sem saber muito bem para onde ir, mas indo com convicção que eles precisam.

 

Autorização para sair à noite

 Não são eles que necessitam de autorização para sair à noite (por enquanto!). Somos nós que, para o fazer, temos de acertar agendas com os avós (que felizmente nos dão uma grande ajuda), para assim podermos sair, namorar, ir ao cinema, beber algo mais que não ice tea, e regressar a casa às tantas (ou bem cedo, para poder dormir a sério).

 Tudo isto traça uma visão negra da paternidade, não? A visão pode ser mais “escura”, mas também porque não falo aqui do bom (aqueles que são pais já o conhecem). Ter filhos não se classifica como o melhor que aconteceu. É algo à parte, para lá disso. E o melhor acontece todos os dias. Quem é pai e os vê sorrir sabe do que falo. É ser Verão cá dentro, durante o ano inteiro. Se pudesse tinha mais 14. Fico por dois, com a mulher que amo.

 

Há um lado lunar na paternidade, claro. Mas a lua é tão bonita que compensa tudo.

Ricardo Martins é jornalista. Pai de uma e de um. Marido de uma. Pessoa que brinca com músicas e tal. Autor do blog Mil por Dia

 

 

 

DoCoração DaCozinha

Faz hoje 17 anos e tive um dos dias mais estranhos da minha vida. Tinha uma loja para inaugurar e um filho para nascer. Aconteceram as duas coisas no mesmo dia.

Tu, Sarrafooo apressado lembraste-te de sair a correr, porque a mãe Kika Veríssimo apanhou um esticão na montra das frutas tropicais e rebentaram-lhe as águas.

Seguiram-se horas muito complicadas.

Primeiro porque tive que ir levar o boxer a casa e esqueci-me de o deixar na varanda e à solta desmanchou-nos metade da casa, comeu meio telefone, 3 kg de cebolas e um chorrilho de disparates. Depois tinha que vos ir levar ao hospital Garcia de Orta, porque o trânsito estava parado por todo o lado e era o sítio mais perto para nasceres.

És um Incrível Almadense, um Cavalo de Corrida, um UHF mal sintonizado.

Fizeste-nos rir e chorar, saíste cheio de avarias, com o disco rigido empenado, ataques cardíacos, paralisias e o diabo a 4. Olhei para ti e dei-te o primeiro biberão e ainda estava tão alcoolizado da festa que fiz horas antes que acho que te embebedei com a minha respiração.

Percebi que tinhas nascido diferente, muito diferente do que estávamos à espera… só abrias um olho por causa da paralisia facial, mas quando o fizeste olhaste para mim e disseste “blhergh”. Por causa disso, durante o teu primeiro ano de vida, ganhaste a cognome de Blherguinho.

O primeiro ano da tua vida encheu-nos de sarilhos, hospitais, fisioterapias, médicos e juntas médicas. E tu, Sarrafo, foste galgando adversidades e deste-nos força para ir atrás de ti. Estiveste ligado a mil máquinas, em coma profundo e um dia resolveste dar-nos outra vez o prazer da tua companhia e acordaste, ao lado da tua avó Hélia, que rezava todos os dias por ti e por mim, porque rezar sabes que é coisa que faço tão bem como cantar ópera.

Ensinaste-me a viver. Ensinas-me a viver todos os dias. Ao fim de 17 primaveras, este é o 1º aniversário que não passamos juntos, mas estás bem com a “mãe bizológica” como lhe chamas, a mãe Kika, porque tens a mania das grandezas e resolveste arranjar outra mãe, a Mãe Supi Ana. Cada vez que sais de ao pé de mim, roubas-me o coração.

És uma das minhas duas obras primas, agora estraga-te não te esqueças.
Rock´n´roll!

Joe Best é o brabo pai do Ricardo. Chef extraordinaire e criador do projecto Da Cozinha.

Ilustração: My Simple Life

A extrema adaptação à maior mudança da vida.

Quando penso em algo que gostava de partilhar com as pessoas, vem­-me inúmeras memórias de felicidade à cabeça, destes pequenos grandes 15 meses de vida do meu filho.
São tantos os momentos em que me arranca um sorriso, uma gargalhada, um olá rasgado, um carinho… mas essa parte toda a gente conhece do que é ter um filho.
São a nossa maior alegria.

Hoje quero partilhar algo muito próprio, a adaptação a uma nova vida desde o dia de nascimento dele.

 

Um dia marcante, mesmo para a minha fraca memória, mas demasiadamente importante para perder um único momento daquele momento mágico.

Antes de me tornar pai, estava habituado a ter a minha rotina, absorvido por projetos e objetivos, uma ambição desmedida de aprender sobre tudo da minha área.
Podia agendar a vida como queria e ainda assim as 24 horas eram escassas, deixando um sentimento de correr atrás do tempo.

As viagens, quer de trabalho, quer de lazer, faziam parte de um estilo de vida, conquistar o mundo nos negócios e na aprendizagem de novas culturas.

Até que chegou aquele dia, aquele que pegou no meu castelo de cartas, construído muito cuidadosamente ao longo dos últimos anos, o derrubou, baralhou e me devolveu para que o voltasse a construir.

Esta é a melhor descrição que encontrei, nestes 15 meses, que descrevesse o processo pelo qual passei com o nascimento do meu filho.

Ele é lindo, mágico, consegue aquilo que mais ninguém consegue com tanta facilidade, mas nem ele me conseguiu preparar para tamanho desconcerto.

Nós humanos, somos seres de hábitos e ele fez me perceber que havia muito mais para além da rotina orientada a objetivos que era a minha vida, sempre a correr contra o tempo.

A minha devoção para com ele e a sua exigência para comigo, fez com que calmamente deixasse de correr desenfreadamente em procura de algo e começasse a encontrar o meu tempo, que começou a ser o suficiente para o trabalho e para ele.

Ainda tem 15 meses e já me ensinou a ser melhor, a partilhar melhor de mim e as 24 horas do dia passaram a ser suficientes.

  

Foram 15 meses muito desafiantes, onde tive que aprender a viver a minha nova vida, onde tive que aprender a conhece-lo, mas valeu tudo a pena, ai se valeu!

Ainda estou a aprender e sinto que o vou fazer toda a minha vida, mas não me importo.

Aquilo que ele retribui é tão forte, tão bom, que tive que me esforçar, para hoje transpor em palavras, as dificuldades deste processo de me reinventar.

A minha intenção em partilhar este texto é confortar os papás que iniciam a sua viagem, pois acredito que todos passamos por este processo, mas não falamos muito sobre ele.
Talvez por termos receio do que as outras pessoas possam pensar, do que nos podem julgar. É um processo normal que hoje consigo ver com maior clareza.

Ajustem-­se, aprendam com eles, mudem o que for preciso, mas aproveitem.
É tão bom, garanto.

Pedro Silva

Pedro Silva é o super pai do miúdo da Bárbara, a co-autora deste blog.