Há algumas semanas fiquei desempregado.

Perder o emprego é stressante. Preocupas-te com a tua família. Duvidas das tuas capacidades. Preocupas-te com o dinheiro. Afinal de contas, tens um filho para criar.

O meu recém-terminado desafio profissional correu tão bem ou tão mal, que logo na semana seguinte recebi 3 ofertas de emprego. Assim. Out of the blue. E das boas. Mas como não há bela sem senão, todas elas fora do país.

Que fiz?

Recusei sem hesitar. E agora pensam vocês: “Que grande besta. Recusa empregos super bem pagos em NY”. Verdade. Fi-lo. Guilty as charged. Fi-lo e fá-lo-ia de novo, por uma simples razão: o meu filho. Não há dinheiro que compense o facto de não poder estar com ele diariamente. Ou quase. Lirismo? Talvez. Romantismo? Provavelmente. E uma monstruosa dose de egoísmo, pois custar-me-ia tanto ou mais a mim estar distante do que a ele.

“Mas algo há-de surgir em Portugal. A economia está a crescer! Há tanta empresa tão boa, todos os dias surgem novos negócios. Tu tens experiência e conhecimento. Tens trabalho feito para apresentar.”

E aqui o Vasconcelos desata a procurar e a concorrer. Ingénuo…

De todas as respostas a candidaturas que enviei, recebi a mesma resposta. Over-qualified. “Obrigado, és um tipo espectacular, tens um CV impressionante, mas… estávamos à procura de alguém mais júnior, mais jovem, tu entendes [inserir aqui uma série de estrangeirismos cool e cenas]” ou “Adorávamos ter-te na nossa equipa, mas infelizmente não temos budget.” [Eu aqui leio alguém baratinho, de preferência elegível para algum programa do IEFP]. Se calhar, se incluir na carta de apresentação o termo “mature”, esta malta achará mais piada.

Tudo isto para dizer o quê? Para dizer que estamos num país/mundo que obriga as pessoas a afastarem-se dos filhos para os poderem criar. Ou a afastar as crianças da família pela mesma razão, sejamos trabalhadores da construção ou executivos de topo. Eu tenho a sorte de ainda ter uma “almofada” que me vai permitindo continuar à procura de emprego de forma mais ou menos tranquila; há quem não o possa fazer. Há quem esteja pior. Conheço vários casos. Todos conhecemos, infelizmente. Em qualquer dos casos, não é justo. Não é justo para os pais, para as crianças, as famílias, ou sequer para o país.

Não, não pretendo um emprego perfeito, com salário milionário e à porta de casa. Pretendo, sim, um emprego que me dê algum gozo e permita não me preocupar em esticar o dinheiro até ao final do mês e, ao mesmo tempo, desfrutar da paternidade.

Bem vistas as coisas, se calhar peço algo bem mais difícil que um simples emprego milionário…

Vasco Vasconcelos

Pai com uma mente curiosa trabalha na área do marketing e das redes sociais. Sigam o Vasco no Twitter – @vascocv

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