Hoje, eu e Olívia encontramos este barco naufragado na praia.
A Olívia ficou muito contente porque não estava cheio de refugiados.
O senhor Silva, que estava na praia ao nosso lado, também ficou contente porque o barco não estava cheio de refugiados.
O Sr. Silva não gosta de refugiados, e tem algumas razões:

– eles não são “nossos” e nós temos de ajudar os “nossos” primeiro

– eles tem outra religião e outra forma de pensar

– eles nunca pagaram um euro de impostos em portugal

– a europa não tem dinheiro para os ajudar

– se os ajudarmos vamos nós pagar isso e já chegou o BPN

– se os acolhermos, daqui por 20 anos seremos regidos pelas leis deles

– eles tem outra religião

– se não nos convertermos ao Islão eles vão-nos decapitar

– temos de ajudar os “nossos” primeiro

– eles não são da nossa religião

– nem sequer são completamente brancos

– eles não são “nossos”

– eles tem outra religião e uma língua e tez esquisitas

A Olívia tem pouco mais de 2 anos e, talvez por ser tão pequena, não vê grande diferença entre o Sr. Silva e um refugiado. Colocar um ou lado do outro para ela seria igual: são os dois desconhecidos e ela não confia em desconhecidos, sejam eles brancos ou pretos.
O Sr. Silva já é adulto, e aprendeu a aceitar todos aqueles que se lhe assemelham, mas em relação aos restantes continua muito desconfiado.
O Sr. Silva tem também muitas características em comum com o Sr. Santos, o Sr. Pereira, o Sr. Ferreira, o Sr. Oliveira, o Sr. Costa, Rodrigues, Martins, Sousa, Fernandes, Gonçalves, Gomes, Lopes, Marques e tantos outros.

A saber (gosto muito de fazer listas):

– vê muita televisão

– lê diariamente os jornais de referência (A Bola, O Jogo e Record)

– é uma pessoa informada

– já viveu muito

– nunca saiu de portugal, ou se saiu foi na lua de mel onde atravessou um oceano para se enfiar num resort a beber marguaritas

– nunca, mas mesmo nunca, pôs os pés num país muçulmano

– para ele quem tem piercings (excepto raparigas no lóbulo da orelha), tatuagens (excepto homens que estiveram no ultramar), cabelos compridos (excepto raparigas de novo) são drogados que não fazem nada vida a não ser roubar

– acha que os Muçulmanos são todos militantes do Estado Islâmico e a missa deles é ao sábado como os Testemunhas de Jeová e os Élders
Ser pai é estar constantemente confrontado com desafios. A Olívia questiona-me a toda a hora.
Porquê que não podemos ir para o parque quando está a chover.
Porque é que o pai tem de ir trabalhar.
Porque é que a mãe está cansada.
Porquê que não pode beber café.
Porque é que o Sporting perdeu outra vez.
Porquê porquê porquê.

Vou conseguindo dar resposta às dúvidas dela, umas mais difíceis do que outras, mas por esta altura fico muito contente por a Olívia ter apenas 2 anos. Ela não vê as noticias e por isso eu não vou ter de explicar porque é que o Sr. Silva não quer ajudar as pessoas que estão a fugir da guerra. Porque é que ele não quer ajudar os meninos que morrem à fome. Porquê que subitamente, são palavras dela, ele ficou tão preocupado com os sem abrigo nacionais quando, ainda a semana passada, dizia que eram um bando de vagabundos que não quer trabalhar.
Mas a Olívia está a crescer e estas perguntas vão acabar por chegar.
Paulo Couto é pai da pequena Olívia, empresário e viajante. Hoje fala-nos de um assunto grave e sério mas já teve um blog onde demonstrava todo o seu peculiar senso de humor e nós também temos saudades disso 🙂

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