A família da minha Mãe tem um forte legado na agricultura e na cultura de plantar e colher da terra o que se precisa para viver.

Durante muitos anos, esteve afastada desse mundo mas, por muito que se tire a rapariga dos Foros de Almada (perto de Santo Estêvão, Benavente), não se tira os Foros de Almada da rapariga. Voltou à origens, voltou a meter as mãos na terra, voltou a criar e, com isso, voltou a viver.
“A horta e os animais são a minha casa. Não preciso de mais nada”, diz ela. E não só diz como o mostra e vive todos os dias.

Mãe GalinhaQuando voltou às tais origens, teve de reaprender uma data de coisas e aprender umas quantas outras. O processo de tentativa e erro foi duro mas, por cada rebento que nascia forte e sobrevivia, a expectativa e a esperança de estar no caminho certo crescia.

E foi o descalabro, o caos.

A minha Mãe, sendo Mãe e possuindo um coração de Mãe gigantesco, simplesmente não era capaz de, por exemplo, plantar meia dúzia de alfaces para comermos. Não. Eram 50. Couves? Dez metros de rebentos plantados. Alhos franceses? Dezenas. Era tudo muito. O prazer que tinha em cuidar das coisas e em as ver crescer quase que a viciava a fazer mais, a plantar mais, a tentar mais, a conseguir mais. Não dávamos conta do recado (há limites para a quantidade de alfaces que um pessoa consegue comer por dia) e ela queixava-se, como boa Mãe que é, que nós não comíamos nada, que não gostávamos das coisas dela, que andava a trabalhar em vão. Claro.Mãe Galinha

Sendo eu filha de minha Mãe e tendo eu sangue de pessoas que passaram as vidas de mangas arregaçadas, decidi mostrar ao Mundo o que  que a filha de seareiros andava a fazer enquanto o resto do mundo se preocupava com tudo menos com a altura em que os pintos da galinha amarela iriam nascer (por exemplo).

Criei a Mãe Galinha e ofereci-me para levar as coisas boas que a minha Mãe produz até casa das pessoas. Agora, quem quisesse, podia provar tudo o que a minha Mãe criava e deliciar-se com os sabores de antigamente.
Hoje em dia, uns anos depois e com muita aprendizagem pelo meio, é com enorme orgulho e muita vaidade que percebo o que a minha Mãe realmente faz e o seu grupo de fiéis consumidores percebeu no imediato – mimo. Eles perceberam que o facto de haver quem vá para a terra trabalhá-la de sol a sol só para ter os alimentos mais saudáveis possível é algo que, hoje em dia, rareia. Eles perceberam que quem faz o que ama, só podia ter resultados que todos adoram.

Ela planta physalis porque sabe que a filha da J gosta muito. Ela escolhe melhor as beterrabas porque sabe que a Mãe da E as adora. Ela tem especial cuidado com os morangos porque sabe que morangos com aquele sabor são uma raridade e que todos os adoram. Ela ata as folhas de couve com cordel porque assim é mais fácil de arrumar no frigorífico. Ela colocou um aparelho de ar condicionado na casota dos coelhos porque sabe que têm mais calor que os outros animais. Ela separa e trata nas palminhas as galinhas que fiquem chocas. Ela trata logo da saúde a galos que sejam mais violentos e ataquem os outros animais (e se a atacarem a ela, é certinho direitinho que em breve haverá galo estufado ou assado no forno…). Ela corta os talos maiores porque sabe que as pessoas preferem as folhas suculentas. Ela faz a colheita pela fresca, quando o sol ainda mal nasceu, porque é quando a Horta está mais bonita e os seus produtos mais vistosos. Ela planta batata doce porque sabe que há muitas pessoas a pedirem e fala com a vizinha para saber se pode apanhar a fruta quando estiver em época porque fruta faz bem e todos deviam ter acesso àquela em particular por ser tão boa.

Mãe GalinhaA minha Mãe, a Mãe Galinha, tem asas que aninham dezenas e dezenas de pessoas, que as confortam e enchem a barriga com coisas boas. Para cada um de nós, a nossa Mãe é sempre a melhor Mãe do Mundo (a minha é!). Mas esta, a Mãe Galinha, é a segunda melhor Mãe do Mundo sem dúvida alguma.

Sónia (Filha da Mãe Galinha)

Podem conhecer melhor esta Mãe Galinha aqui.

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