Desde que me lembro sofro de Síndrome de Ansiedade…

Recordo-me de estar na escola e sentir vários sintomas: as mãos a suar, o coração a palpitar e uma sensação de estar fora do meu corpo.

Naquela altura sentia que era um assunto tabu, talvez devido à falta de compreensão por parte das pessoas que me rodeavam, algo muito comum a quem nunca sentiu na pele este problema. Vi por exemplo, muitas vezes a minha mãe a chorar porque não sabia o que fazer comigo, principalmente quando muitos familiares e a maioria dos médicos a quem recorríamos, diziam que era mimo. Cresci então como a miúda mimada cujas reações envergonhavam facilmente a família.

Como é normal naquela idade eu era uma criança cheia de sonhos e objetivos, mas devido a esta condição muitos deles tiveram de ficar para trás.
Desses sonhos havia alguns que sobressaíam: ser uma mulher independente, encontrar alguém especial – o amor da minha vida, como sempre gostei de dizer – e construir uma família.
Quanto a ser independente, mesmo sendo algo extremamente difícil para quem sofre de Síndrome de Ansiedade, ainda hoje em dia faz parte da minha luta. Mas apesar de todas as barreiras impostas por esta condição, consegui criar o meu próprio negócio, um feito do qual muito me orgulho.
Quanto ao outro, a verdade é que tanto sonhei e desejei que consegui encontrar alguém que me aceita como sou e ainda por cima me admira ao ver como luto diariamente sem desistir, contra os obstáculos que este problema me coloca, como as crises de ansiedade, os pontuais ataques de pânico, etc.
Para conhecer essa pessoa foi preciso a ajuda de um certo passarinho azul muito conhecido por sinal, que nos juntou em pouco tempo. O Twitter!
Apesar de tomar a pílula acabei por engravidar, não tendo a noção naquela altura que certos medicamentos para a ansiedade e depressão ajudam a atenuar o efeito da pílula.
Mesmo sendo uma surpresa inesperada ficamos muito felizes, tendo sido desde logo algo muito desejado!
Após o “carrossel” inicial de emoções entre o choque e a felicidade que esta maravilhosa notícia me fez sentir, dei por mim a pensar na medicação que tomava e no impacto que poderia ter na gestação do bebé. Como é que eu iria eu gerar um bebé e ao mesmo tempo tomar os medicamentos indispensáveis para tratar e controlar o meu problema? – perguntei a mim mesma muitas vezes de lágrimas nos olhos.
Consultei então a minha médica ginecologista que desde logo me encaminhou para uma psiquiatra de forma a se traçar um plano de redução da medicação.

Esta foi uma fase muito difícil porque logo de início comecei a sentir a falta da medicação e fui-me abaixo… Havia dias em que fazia o caminho de casa para o trabalho sempre a falar ao telemóvel para não ter de pensar na possibilidade de ter uma crise de ansiedade.
A intensidade com que vivi os três primeiros meses da gravidez foi muito grande ao ter que ao mesmo tempo reduzir a medicação, – entretanto já noiva – ter que organizar o meu casamento e tratar do processo de compra de casa… Se para uma pessoa que não sofre deste tipo de patologia gerir tudo isto ao mesmo tempo (e em pouco tempo) seria muito complicado, o quanto não o foi para mim.
Com toda esta turbulência acabei por ter alguns pequenos sustos com a gravidez – perdas de sangue, constantes idas às urgências, etc. – tive que saber muito bem gerir os meus níveis de ansiedade e stress, porque sabia que se eu me alterasse quem iria sofre era o bebé. Para isso tentei aprender alguns truques ao nível da respiração e ouvia música para me acalmar e relaxar, mas acabou por não ser o suficiente.
Cada vez mais fiquei “presa” a este síndrome que teimava em dominar a minha vida. As palpitações, os suores frios, a falta de segurança em mim própria e medos como o de perder o bebé ou o de eu morrer, eram cada vez mais uma constante.
Uma vez mais voltei a recorrer às médicas que me acompanhavam, aconselhando-me desde logo repouso absoluto, fazendo também os ajustes necessários na medição que tomava. E para piorar a minha situação a empresa para quem trabalhava aproveitou o fato de eu estar grávida para não renovar o contrato de trabalho, ficando sem emprego e sem qualquer tipo de rendimento.
Isto afetou-me bastante porque como já mencionei, sempre valorizei ser uma mulher independente e jamais me via a ser sustentada por quem quer que fosse.
Foi por esta altura que senti dentro da barriga o primeiro pontapé do meu filho. Senti-lo desta forma fez-me ganhar um novo animo e prometi a mim mesma que não iria desistir de lutar para trazer ao mundo um bebé saudável.
O suporte familiar foi também essencial para o conseguir, e o apoio que tive especialmente do meu marido e da família mais chegada, foi incrível!
A entrada para o último trimestre da gravidez tinha já engordado mais de 20kg, o que me trouxe algumas complicações ao nível da coluna, pernas e nervo ciático, começando a ter dificuldades em caminhar. Por isso foi com uma enorme sensação de alívio – e recordo-me como se fosse hoje – o dia em que ficou marcada a cesariana. A ansiedade de ter o meu filho nos meus braços era muita.
Quando finalmente chegou o dia curiosamente acordei calma e dei entrada no hospital apenas com o meu marido, para evitar a ansiedade dos restantes pessoas, mantendo à minha volta um ambiente tranquilo. Subi para a sala de cirurgia bastante tranquila onde pouco depois iria sentir um alívio enorme nas dores no nervo ciático graças à epidural.
Mal me foi administram a epidural o meu marido entrou e sentou-se do meu lado a dar-me a mão.
Numa questão de poucos minutos ouviu-se um choro de bebé, e ao ver o meu marido lavado em lágrimas de felicidade, caí em mim: Já sou mãe!
Logo de seguida puseram-no junto a mim e num momento muito íntimo por entre uma “chuva” de beijinhos, prometi que iria protege-lo enquanto fosse viva!
Senti desde aquele primeiro segundo como se já o conhecesse desde sempre.
Foi sem dúvida o momento mais feliz de toda a minha vida!
Como todo o processo da cesariana correu dentro da normalidade, não demorei muito em descer para o meu quarto para descansar e partilhar com a restante família – que entretanto foram chegando – este momento de alegria e amor!
Hoje sinto que sou uma pessoa mais completa e confiante, que luta diariamente para que o meu filho cresça feliz e pelo amor que me une ao meu marido.
Provavelmente terei que viver com isto a minha vida toda, e se assim for, que seja… Porque sou muito feliz!!

 

Joana Macedo Silva

 

Queria Joana, muito obrigada pela tua partilha e pela tua coragem! Desejamos-te tudo de bom e que continues a vencer no teu caminho! <3

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