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As palavras por dizer!

Vão ao médico. Frequentem a consulta de planeamento familiar todas as semanas. Usem preservativo, dispositivo intrauterino, o anel, o adesivo e o implante. Espermicida inseticida e óleo de fígado de bacalhau. Laqueiem as trompas e façam uma vasectomia. Deixem crescer todos os pelos do corpo, não usem desodorizante, fio dentário ou pasta dentífrica. Não tomem banho se preciso for! Abstenham-se raios. Cuidem da vossa saúde, não tenham filhos, por favor.

Agora olha para cima, volta atrás e lê tudo do inicio. Posso trata-lo por tu? Chegados aqui, vou assumir que sim, somos amigos.

O que ninguém nos diz antes de sermos pais, é que depois de ter um filho viveremos para sempre no medo de o perder. E não é metáfora, não me refiro a perder um bebé que cresce e depois é do mundo, nada disso, perder perder, ver sofrer ou até morrer. Porque depois da euforia do nascimento nasce essa angustia, incerteza amarga, será que o vou deixar cair, estou a pegar bem, ainda parto alguma coisa, e se ele sufoca a dormir, a morte súbita é um risco, e no carro, vou mudar de carro para um mais seguro, e comprar uma cadeirinha com triplo airbag e atmosfera protetora. Porque agora tudo pode acontecer, e ele é tão frágil, que o único objetivo das nossas vidas é protegê-lo, com a nossa própria vida se for preciso. E não estou a exagerar.

E não acontece nada, ou acontece tudo. Nasce prematuro e os pais acordam de imediato para um limbo de muitas semanas de dúvidas, alimentadas por esperanças. Nasce bem e saudável mas um simples vírus, uma poeira de merda de tamanho microscópico, atira a vida do recém nascido para um novelo de indecisões, onde os pais se embrenham até à ponta do último fio, incapazes e impotentes, jurando dar a vida pelo ser que acabaram de conhecer. Correndo bem tudo se esquece, mas fica o medo, esse fica sempre.

Eles crescem. De bebés se tornam crianças, as saudades que sentimos do primeiro estado, e à medida que crescem qualquer percalço é um apocalipse. Da gripe à varicela, dos cinco pontos na cabeça à perna partida, do choro por perder um amigo à asma asfixiante. 

Ver um filho sofrer é um desastre de proporções inimagináveis. É uma dor na alma, um sobressalto constante. Um filho longe e um telefone a tocar é pólvora ao lado de fogo. E nada nos prepara para isto, nem as imagens da Síria vista no jornal da noite.

Por isso deixo o conselho, que não é ensinamento, mas sim aviso. Na preparação para o parto ninguém nos ensina a sofrer, ninguém nos avisa que vai ser assim para sempre, em todos os dias da nossa vida, ter filhos é ter medo de os perder.

Ainda aqui estás, posso continuar a tratar-te por tu? Vou dizer-te o que os teus outros amigos calaram. Não estás disponível para sofrer, todos os dias, pelos filhos? Volta ao inicio deste texto. Lê todo o primeiro parágrafo, repetidas vezes, até ao fim.

Há sangue suor e lágrimas no caminho da felicidade.

 

(Este texto é escrito ao abrigo do antigo e do novo acordo ortográfico. Num país que criou muitos mestiços eu gosto de misturas)

 

Paulo Couto

2 de Julho 2017

Paulo Couto é pai da Olívia e do Xavier, é empresário e realizador com alma de viajante. Vejam alguns dos seus trabalhos aqui



Os créditos da foto são mais uma vez da Marta Marinho, mulher do Paulo e excelente fotógrafa.

Escolhas!

Há algumas semanas fiquei desempregado.

Perder o emprego é stressante. Preocupas-te com a tua família. Duvidas das tuas capacidades. Preocupas-te com o dinheiro. Afinal de contas, tens um filho para criar.

O meu recém-terminado desafio profissional correu tão bem ou tão mal, que logo na semana seguinte recebi 3 ofertas de emprego. Assim. Out of the blue. E das boas. Mas como não há bela sem senão, todas elas fora do país.

Que fiz?

Recusei sem hesitar. E agora pensam vocês: “Que grande besta. Recusa empregos super bem pagos em NY”. Verdade. Fi-lo. Guilty as charged. Fi-lo e fá-lo-ia de novo, por uma simples razão: o meu filho. Não há dinheiro que compense o facto de não poder estar com ele diariamente. Ou quase. Lirismo? Talvez. Romantismo? Provavelmente. E uma monstruosa dose de egoísmo, pois custar-me-ia tanto ou mais a mim estar distante do que a ele.

“Mas algo há-de surgir em Portugal. A economia está a crescer! Há tanta empresa tão boa, todos os dias surgem novos negócios. Tu tens experiência e conhecimento. Tens trabalho feito para apresentar.”

E aqui o Vasconcelos desata a procurar e a concorrer. Ingénuo…

De todas as respostas a candidaturas que enviei, recebi a mesma resposta. Over-qualified. “Obrigado, és um tipo espectacular, tens um CV impressionante, mas… estávamos à procura de alguém mais júnior, mais jovem, tu entendes [inserir aqui uma série de estrangeirismos cool e cenas]” ou “Adorávamos ter-te na nossa equipa, mas infelizmente não temos budget.” [Eu aqui leio alguém baratinho, de preferência elegível para algum programa do IEFP]. Se calhar, se incluir na carta de apresentação o termo “mature”, esta malta achará mais piada.

Tudo isto para dizer o quê? Para dizer que estamos num país/mundo que obriga as pessoas a afastarem-se dos filhos para os poderem criar. Ou a afastar as crianças da família pela mesma razão, sejamos trabalhadores da construção ou executivos de topo. Eu tenho a sorte de ainda ter uma “almofada” que me vai permitindo continuar à procura de emprego de forma mais ou menos tranquila; há quem não o possa fazer. Há quem esteja pior. Conheço vários casos. Todos conhecemos, infelizmente. Em qualquer dos casos, não é justo. Não é justo para os pais, para as crianças, as famílias, ou sequer para o país.

Não, não pretendo um emprego perfeito, com salário milionário e à porta de casa. Pretendo, sim, um emprego que me dê algum gozo e permita não me preocupar em esticar o dinheiro até ao final do mês e, ao mesmo tempo, desfrutar da paternidade.

Bem vistas as coisas, se calhar peço algo bem mais difícil que um simples emprego milionário…

Vasco Vasconcelos

Pai com uma mente curiosa trabalha na área do marketing e das redes sociais. Sigam o Vasco no Twitter – @vascocv

Outra vez o sono dos bebés…

Penso que nunca ouvi falar tanto sobre o sono do bebé como actualmente. Muito se escreve, muito se diz e muito se teoriza…

Apesar de algumas formações na área dos bebés e das famílias não sou especialista no sono mas sou mãe e acho que isso é o que realmente importa. Daquilo que vivenciei como mãe juntando algumas teorias que sabia na altura consigo agora concluir que tal como o mundo não é preto e branco, também os bebés são diferentes como uma palete de cores. Há bebés irritáveis, sensíveis, difíceis, enérgicos, mas também os há calmos, pacíficos, fáceis de lidar e portanto com esta realidade é impossível de determinar uma teoria como certa. O que fazer quando até os pediatras de referência nos dizem o que é certo ou errado, mesmo quando vai contra aquilo que acreditamos?

Eu penso que a tentativa e erro fazem parte do processo de parentalidade primeiro porque como já disse anteriormente os bebés são todos diferentes, mas também porque eles passam por etapas de crescimento e quando parece que está tudo bem e pacífico de repente acontece algo que volta a desorganizar tudo e portanto o que funcionou num momento pode ter que ser adaptado a uma nova realidade. Não é fácil gerir tanta informação com as dúvidas e crenças. Se me permitem deixo aqui umas dicas:

– Do que sabem, do que ouvirem e do que lerem retirem os métodos que vos deixem confortáveis. Um bebé não pode estar descansado se sentir ansiedade e dúvida por parte dos pais;

– Os pais estarem de acordo entre si com a rotina de sono que escolheram adoptar é importante. Uma família que discute sobre o facto do bebé estar a chorar há 30 min, ou a dormir na mesma cama não traz paz ao bebé, muito pelo contrário;

– Alternarem os cuidados quando um dos pais está mais cansado. Quando estão irritados e exaustos porque o bebé não dorme a paciência diminui, não pensam com clareza e perturbam ainda mais o bebé. Se um dos pais não puder, recorram a uma terceira pessoa da vossa confiança;

– Encontrar um ponto de equilíbrio entre o vosso bem-estar e o do bebé. Podem abdicar de algumas coisas em prol das necessidades do bebé mas não é razoável anular tudo o que for prazeroso em função daquilo que ele quer. Se os pais não estiverem bem consigo próprios, ou entre eles, isso vai destabilizar o bebé mesmo que seja a médio prazo;

– Não confundir as necessidades do bebé com as necessidades da mãe/pai. Todos os pais gostam de sentir que os filhos precisam de si e por vezes custa aceitar a sua autonomia, mas esta é fundamental para o desenvolvimento geral da criança. Neste caso a autonomia no sono é um processo natural e desejável e não obriga que exista sofrimento/choro. Por outro lado, quando os pais não aceitam e impedem a autonomia da criança podem estar a promover a insegurança;

– Antes de chegarem ao limite peçam ajuda especializada. Escolham um apoio que esteja disponível para adaptar a metodologia consoante a família que tem à frente, ou seja, vá de encontro às vossas crenças e seja sensível à vossa realidade familiar. Bebés diferentes têm necessidades diferentes logo, as abordagens não devem ser “chapa 5”.

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Acima de tudo acreditem que aquele bebé não nasceu para vos chatear e ele precisa de vocês, mas pode ter um temperamento que exige mais do vosso papel de pais para responder às suas necessidades. Já dizia Brazelton que os pais são os melhores especialistas nos seus filhos, mesmo assim podem precisar de ajuda nos primeiros tempos para entender a comunicação do bebé. Tenham a certeza de que aos poucos tudo vai correr bem.

*A autora não segue o acordo ortográfico

Íris Seixas ajuda os pais no processo de descoberta do seu filho, partindo das premissas de que cada bebé é um ser único, e que os pais são os peritos nos seus filhos. Trabalha com Infância e Parentalidade e podem-na seguir e contactar através da sua página: Íris Seixas – Página Profissional na área da Infância/Parentalidade

“Pais cansados e crianças felizes vivem aqui”

Muita gente que conheço, muitos daqueles de quem fugi ou corri atrás na escola, está nesta fase a ser pai/mãe pela primeira ou segunda vez.
Estamos todos a criar famílias e a povoar o mundo (como se houvesse falta de gente cá).

Não há muito tempo eu estava num restaurante em Almancil, no Algarve, quando vejo uma placa junto ao imenso vidro da cozinha: “ Aqui moram pais cansados e crianças felizes”.

 

restaurante

Foi depois de jantar e é incrível como o álcool ainda me permitia ler.

Desconfiei sempre dos pais de crianças recém-paridas que, ao final de alguns meses, dizem que a vida pouco mudou.
É como ser atropelado por um camião TIR, na auto-estrada, esperar 10 minutos levantar e seguir viagem para mais uma noite de copos. Não faz sentido. Provavelmente o camião passou ao lado, ou só de raspão.

Não quero fazer figura de censor, mas qualquer progenitor sem nódoas de comida na roupa, ombros e braços, olheiras até aos cotovelos, cabelo por pentear e que, a partir do primeiro ano, saiba onde está o comando da televisão, passou ao lado do camião. Ficou sem história para contar, e este camião não faz marcha-atrás.

Deixem-se ser atropelados, pela vossa saúde.

Nota importante: o restaurante é excelente, acho que isso também é importante.

 

Paulo Couto é pai da pequena Olívia, empresário e viajante.

Todas as ilustrações dos convidados são: My Simple Life

Tosse Convulsa!

 

Recentemente vi nas notícias que o Mark Zuckerberg tinha tido uma filha. Que anda babado, como todos os papás. E como “papá” babado do Facebook, usa a rede social para mostrar o orgulho no tempo com a sua filhota. Depois disso, várias foram os títulos sobre a situação, que devido à falta de tempo (pois também eu sou a mãe babada de um pequenino) ignorei. Até que vi um que dizia que Mark Zuckerberg tinha colocado uma foto com a filha, e tinha sido severamente criticado por outros utilizadores da dita rede social.

Seria por colocar uma foto da miúda num sítio tão público? Como era um momento [curto] em que podia divagar pela net, abri a notícia. Começava com algo do género: “Mark Zuckerberg tira licença de paternidade de 6 meses”. Não, não podia ser por isso…quem dera a muitos pais fazer o mesmo! Se ele pode, não deve, OBVIAMENTE hesitar!

Aparvalhei quando percebi a real razão das críticas: parece que a foto era num consultório médico e a legenda era algo do tipo: “à espera das vacinas”. Estavam a criticá-lo por vacinar a filha. Há muitas modas relacionadas com educação de crianças, mas esta é uma que nunca compreenderei. Porque na maioria delas, podemos dizer: “Não temos nada com isso! É decisão dos pais”. Nesta “moda”, a decisão é dos pais, sim, mas temos algo com isso, sim senhor! A cobertura de vacinas por cá induz a chamada imunidade de grupo, que acresce ainda mais proteção à população para além da vacina individualmente.

Se sempre me foi difícil compreender por que razão boatos já contrariados pela ciência ou justificações para não vacinar com constituintes da vacina usados há dezenas de anos eram razão para esta prática se começar a espalhar… Mas no ano que passou, tive uma razão ainda mais válida para me irritar sempre que ouço alguém defender a não vacinação… O meu miúdo apanhou tosse convulsa aos 2 meses! O diagnóstico foi feito 3 dias antes de levar a vacina que iniciaria o seu processo de proteção da doença.

Hoje li uma outra notícia: a de um menino que morreu com tosse convulsa, e cuja mãe tenta espalhar a história, para que as grávidas se vacinem contra a tosse convulsa e estejam protegidas logo desde a gravidez (não é garantido que a vacinação das grávidas proteja totalmente o bebé recém nascido, mas compreendo que esta mãe, perante tal dor, queira sentir que faz algo de bom por alguém, em memória do seu filho).

O meu miúdo safou-se, mas ainda hoje com 7 meses tem por vezes crises de tosse que me fazem doer o coração. Durante o internamento não descansei, por não saber o futuro, e por não ter a certeza do Destino não me ir roubar mais um filho. Esteve aflito, mas mesmo assim podia ter sido bem pior. Podia ter sido mais grave. Podia ter morrido!

E sinceramente, não consigo “perdoar” a quem deixa certos vírus e bactérias circular por aí, quando já quase não deviam existir. Foi graças a essas pessoas que vivi tempos de tanta incerteza. Foi graças a essas pessoas que várias mães passaram pelo mesmo que eu, e muitas não viram a sua história ter um final feliz.

Sou tolerante para praticamente tudo o que vejo e ouço. Porque realmente não tenho nada a ver com isso… Com a decisão de não vacinar, já tenho!

 

Ana Matos é mãe da Leonor e do Leonardo, médica e autora dos blogues mamã-bio e Our Mad World
Ver outro artigo da Ana no nosso blogue: aqui!

Ilustração: My Simple Life

Um no céu, outro na barriga!

Sempre olhei para uma gravidez sem grandes intercorrências e posterior nascimento de um ser tão perfeito a vários níveis como um verdadeiro milagre.
Desejava um dia poder vivê-lo na primeira pessoa, e o ano de 2013 deu-me essa oportunidade.
Não consigo ter noção de como a minha experiência foi influenciada pelo facto de ser médica, mas talvez tenha vivido cada passo da gravidez de forma um pouco mais ansiosa, talvez por saber ao pormenor teórico tudo o que pode correr mal.
Quis o destino que eu fosse uma das bafejadas com intercorrências graves (tal como a minha bebé), e que ficasse sem ela 6 dias após nascer, com apenas 26 semanas e 441 g.
O vazio que fica, depois de tantas expectativas e formatações mentais de que a vida mudará tanto depois do primeiro rebento, é algo indescritível.
Preparámo-nos para o resto da vida com uma filha que não viria para casa connosco.
Tudo estava orientado para mudanças radicais, mas nada mudou excepto nós.
Confesso que nos primeiros dias perguntava a mim mesma quando me deixariam tentar engravidar de novo.
Mesmo com os riscos inerentes, com a forte possibilidade de tudo se repetir queria tenta.
Logo percebi que, provavelmente, o meu corpo demoraria a recuperar e talvez ainda assim recuperasse mais rápido do que a minha mente.
Mas depois do luto (que apenas se transformou em saudade), a ideia foi ganhando contornos mais definidos na minha cabeça, e o impulso já não era o de substituir o silêncio deixado por uma filha, com outro filho. Era a de preencher um lugarzinho novo que se tinha criado no meu coração, ao lado do cantinho que seria para sempre ocupado pela minha filha.
Era continuar a ser mãe (de uma forma mais convencional, se possível), porque já me via nesse papel mesmo que de uma forma que ninguém ensina.
Nesta segunda vez, a experiência de uma nova aventura da maternidade começou muito antes de ver um teste positivo de gravidez.
Havia uma possibilidade de não poder voltar a engravidar, pelo que a cada mês que passava sem o conseguir havia ali um dia em específico em que me ia abaixo.
A razão dizia-me que era normal, a emoção já era mais difícil de controlar.
Quando aconteceu, começou a montanha russa que ainda hoje, às 35 semanas de gravidez, vivo.
Iria o pequeno embrião aguentar-se?
Pela elevada taxa de abortos iniciais, guardei para mim.
O pai soube 3 dias depois, quando senti uma vontade incontrolável de começar a viver a felicidade.
Mas deveria vivê-la? Deveria “fingir” que não existia até ter certezas, de forma a proteger-me de mais dor caso algo corresse mal?
Decidi desde início que este meu segundo filho não merecia contenções pelo que já tinha passado, e que ia ter direito ao “pacote” de sentimentos completo.
Se algo corresse mal, assim continuaria, e teria um lugar tão especial no meu coração como a irmã.
Foi uma decisão importante, que me deixou começar um diário de gravidez, renovar planos, começar a comprar coisinhas para o seu enxoval, saber que iria conseguir montar um quarto novo. Não queria proteger-me de sentir, mas para além deste imenso amor por uma criaturinha tão pequena, o medo (o pânico!) estava sempre presente. Incontrolável, na maior parte das vezes. Mas disfarçável…
Durante estes quase 8 meses, não houve vez que fosse à casa de banho e não ficasse nervosa para ver se teria alguma hemorragia.
Não houve dor, por mais pequena que fosse, que não me trouxesse a angústia de não saber se estava tudo bem.
Não houve ecografia que não fosse antecedida por vários dias de ansiedade, a imaginar sempre mil e um cenários possíveis de coisas que pudessem estar mal. Não houve dia em que não medisse a tensão (por vezes 2 e 3 vezes, tendo-me rido quando a médica me recomendou no início do 3º trimestre “Agora, se conseguir, tente medir a tensão pelo menos 2 vezes por semana”).
Muitos dias em que achei que a barriga estava demasiado grande ou demasiado pequena, demasiado descaída ou pesada.
Muitos dias em que confundi cãimbras irradiadas na barriga com contracções prematuras, muitos pesadelos com bolsas rotas prematuramente, muito medo do meu corpo me voltar a “falhar”.
Não, não me sinto culpada de nada, mas não posso deixar de assumir o facto de que o meu corpo me falhou numa das coisas que lhe deviam ser mais naturais.
Pergunto-me, por vezes, como será viver uma gravidez tranquila, e ser abençoado com o nascimento de um amor maior, e ele chorar nos nossos braços.
Pergunto-me se, independentemente da sua experiência prévia, haverá alguma grávida realmente sem stress, sem medos.
Talvez não… Talvez a minha experiência não seja assim tão diferente da da maioria.
Sei que nunca terei uma gravidez sem pânico, mas se tiver direito ao prémio final, como espero, tudo será compensado…e espero brevemente dizer-vos por experiência própria (cheia de olheiras, despenteada, e com a roupa bolsada), que ser mãe de um bebé que quis ficar pela Terra é o melhor do mundo!
 Ana Matos

Ana Matos é mãe da Leonor e do Leonardo, médica e autora do blog Our Mad World

A extrema adaptação à maior mudança da vida.

Quando penso em algo que gostava de partilhar com as pessoas, vem­-me inúmeras memórias de felicidade à cabeça, destes pequenos grandes 15 meses de vida do meu filho.
São tantos os momentos em que me arranca um sorriso, uma gargalhada, um olá rasgado, um carinho… mas essa parte toda a gente conhece do que é ter um filho.
São a nossa maior alegria.

Hoje quero partilhar algo muito próprio, a adaptação a uma nova vida desde o dia de nascimento dele.

 

Um dia marcante, mesmo para a minha fraca memória, mas demasiadamente importante para perder um único momento daquele momento mágico.

Antes de me tornar pai, estava habituado a ter a minha rotina, absorvido por projetos e objetivos, uma ambição desmedida de aprender sobre tudo da minha área.
Podia agendar a vida como queria e ainda assim as 24 horas eram escassas, deixando um sentimento de correr atrás do tempo.

As viagens, quer de trabalho, quer de lazer, faziam parte de um estilo de vida, conquistar o mundo nos negócios e na aprendizagem de novas culturas.

Até que chegou aquele dia, aquele que pegou no meu castelo de cartas, construído muito cuidadosamente ao longo dos últimos anos, o derrubou, baralhou e me devolveu para que o voltasse a construir.

Esta é a melhor descrição que encontrei, nestes 15 meses, que descrevesse o processo pelo qual passei com o nascimento do meu filho.

Ele é lindo, mágico, consegue aquilo que mais ninguém consegue com tanta facilidade, mas nem ele me conseguiu preparar para tamanho desconcerto.

Nós humanos, somos seres de hábitos e ele fez me perceber que havia muito mais para além da rotina orientada a objetivos que era a minha vida, sempre a correr contra o tempo.

A minha devoção para com ele e a sua exigência para comigo, fez com que calmamente deixasse de correr desenfreadamente em procura de algo e começasse a encontrar o meu tempo, que começou a ser o suficiente para o trabalho e para ele.

Ainda tem 15 meses e já me ensinou a ser melhor, a partilhar melhor de mim e as 24 horas do dia passaram a ser suficientes.

  

Foram 15 meses muito desafiantes, onde tive que aprender a viver a minha nova vida, onde tive que aprender a conhece-lo, mas valeu tudo a pena, ai se valeu!

Ainda estou a aprender e sinto que o vou fazer toda a minha vida, mas não me importo.

Aquilo que ele retribui é tão forte, tão bom, que tive que me esforçar, para hoje transpor em palavras, as dificuldades deste processo de me reinventar.

A minha intenção em partilhar este texto é confortar os papás que iniciam a sua viagem, pois acredito que todos passamos por este processo, mas não falamos muito sobre ele.
Talvez por termos receio do que as outras pessoas possam pensar, do que nos podem julgar. É um processo normal que hoje consigo ver com maior clareza.

Ajustem-­se, aprendam com eles, mudem o que for preciso, mas aproveitem.
É tão bom, garanto.

Pedro Silva

Pedro Silva é o super pai do miúdo da Bárbara, a co-autora deste blog.

Be my guest! 

Com tantas visões sobre a maternidade, tantas experiências únicas, tantas histórias para contar decidimos abrir a porta do Sweet Caos…

Por este motivo, vamos ter alguns posts escritos por convidados. Vai ser bom!

Gostamos de pessoas. Gostamos de opiniões. Gostamos de ouvir.

Para nós, é um prazer termos pessoas tão especiais a partilhar as suas experiência/histórias/opiniões neste nosso cantinho.

A acompanhar cada post de convidados vamos ter uma ilustração exclusiva da My Simple Life (obrigada mais uma vez pelo trabalho fantástico). 

 Por isso, já sabem, sempre que virem uma ilustração gira é porque temos mais um maravilhoso convidado.

O primeiro convidado, a entrar no nosso pequeno universo, é a Joana Rita Sousa, Filósofa, (não) professora de filosofia (para crianças).

Porque no mundo das dúvidas que é esta história da maternidade ela garante-nos que ‘Perguntar é Fixe’. Nós perguntámos e ela disse: Fixe! 😀 

Obrigada mais uma vez pela participação. 

Espero que adorem, tanto como nós, o post da Joana. 

 Não percam, é já no próximo Domingo.