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Mãe, vais morrer?

Para quem não sabe, tornei-me insuficiente renal há 3 anos e nessa altura tive que tomar a decisão de como iria conviver com a minha doença e o facto de ser mãe na altura de um menino de 5 anos.
Na altura o choque foi seco, não houve grande tempo de raciocinar sobre tudo o que estava a acontecer, mas havia algo ou alguém que me obrigava a tomar decisões rapidamente e tentar acertar o melhor que podia.
Não é fácil explicar a uma criança de 5 anos que a mãe está no hospital, vai ficar lá, que tudo vai mudar a partir dali. Mas o meu marido, com tudo o que estava a acontecer, conseguiu fazer o mais difícil e da melhor forma. Tendo todo o cuidado do mundo, claro, ele explicou ao filho de igual para igual, tudo o que estava a acontecer, sem esconder nada.

Explicou que os meus rins tinham parado, que iria passar algum tempo no hospital, que iria vir para casa e que as coisas iriam mudar.
Não explicou ao pormenor, mas deu a ideia e deixou que ele fizesse as suas perguntas. O que o meu marido conta que ele até reagiu bem, mas depois quando iam no carro ele quebrou e chorou. Normal! O meu marido parou o carro e consolou-o! O primeiro dia tinha sido superado, o mais difícil passou!

Isto para chegar a como eu consegui ultrapassar esta situação junto do meu filho.

Posso dizer que o que me salvou a vida foi o facto de ser mãe, na altura todos os pensamentos iam para o Luís, o meu filho.

A preocupação constante como ele estava, como estava a reagir, o que isto o ia afectar e como eu não lhe queria estragar a infância, dava-me forças. Eu não podia desistir e tinha que manter a normalidade ao meu filho. E isso foi-me dando forças para enfrentar tudo, mesmo nas alturas que já não as tinha.
Quando regressei a casa, apercebi-me que tinha uma criança muito curiosa e que queria saber tudo sobre rins. Tentei explicar tudo, decidi nunca esconder nada. Tentei ao máximo simplificar as respostas, algumas difíceis, mas fui com o tempo apanhando o jeito.

Mas houve uma pergunta a qual nunca esqueci, a derradeira pergunta, aquela que assombra qualquer pai e que é a mais difícil de responder:

– Mãe, vais morrer?

Acreditem que ainda hoje me custa relembrar o momento, as lágrimas correm-me sempre quatro a quatro, cada vez que o faço. No primeiro minuto, não consegui dizer nada, apenas olhei para a carinha de olhos esbugalhados à espera de uma resposta. A única coisa que eu pensava, era o que lhe ia dizer, como dizer e como evitar que aquilo o assombrasse.
Guiada pelo meu instinto e sem saber o que estava a fazer, apenas respondi

– Sim, a mãe vai morrer um dia, porque todos morrem. Mas eu não sei, quando vai acontecer! Nunca sabemos, mas é natural! É a vida!
– seguida disto veio claro, várias afirmações de: eu não quero que tu morras, não quero ficar sem ti.

Eu ouvia as palavras saírem da boca dele e a única coisa que eu queria era chorar, mas não podia, estava decidida a fazer daquela conversa, algo leve, algo natural e simples.

Então expliquei-lhe que mesmo que um dia eu morresse eu iria viver sempre no coraçãozinho dele, que iria sempre estar com ele, que nunca sairia do lado dele e que bastava ele lembrar-se de mim que eu iria estar ali.
Foi então que me perguntou quando se me podia ver e eu respondi:

– Olhas para o céu e a estrela que estiver a brilhar mais, sou eu! Mas se fechares os olhinhos e me recordares, já sabes que eu estou perto de ti!

Conversámos mais um pouco sobre o assunto e respondi a tudo o que perguntou, não recusei nenhuma pergunta. Tentei minimizar o que podia, mas tentei também ser realista.

Queria um filho preparado, queria e quero protegê-lo até depois da minha morte, porque ninguém vive para sempre, nem os pais. É o meu dever!

Depois desta conversa, houve mais algumas. Era normal! Tinha sido uma grande alteração nas nossas vidas e tanto eu como o meu marido tínhamos decidido que para ele o melhor seria contar-lhe tudo e nunca esconder nada. Ele era e é uma criança muito pragmática, tinha de ser assim com ele, impossível de outra forma.

Hoje olho para ele e penso que tomei a melhor decisão. O Luís é uma criança feliz, com a sua inocência de criança, muito esclarecido nestas coisas de saúde. A morte para ele é algo natural, algo que faz parte da vida. Já não fala no assunto, pois está esclarecido e não tem questões.
Na altura a forma como eu queria conduzir a minha vida e conviver com a minha condição foi-me ensinada pelo meu filho. Eu tinha de viver e não sobreviver e como mãe devia-lhe isso! Somos felizes!
Muitas vezes escondemos o problemas às crianças, para protegê-las, pois achamos que não sabem lidar, não estão preparadas. Mas, a verdade, é que são mais fortes do que aquilo pensamos.

Paula Almeida, mãe de um pirata muito feliz! A vida fechou-lhe uma porta, mas abriu-lhe várias janelas. Autora do blog PadaandLuda

O Bowie morreu!

O Bowie morreu!

Já faz dias, eu sei! E este tema nada tem a ver com este blogue… mas este blogue serve também para desabafarmos, expormos-nos, falarmos alto alguns dos nossos pensamentos.

Nunca tive Bowie como um dos músicos que ouço constantemente.  Nunca ouvi um álbum dele do principio ao fim.
Mas sempre lhe reconheci a genialidade e a originalidade.  Acredito mesmo que a grandeza dele se deve ao facto de ter estas duas características juntas! Genialidade e originalidade.

A morte de Bowie fez com que olhasse para o seu ultimo trabalho com outros olhos… com outros ouvidos.

Ele sabia tão bem que estava a morrer e em vez de se deixar morrer, matou-se.
Não sei se se matou mesmo como se especula. Mas matou-se dramaticamente com o último álbum e os últimos vídeo-clips. Ele soube fazer uma despedida DAQUELAS!

Pelo menos para os fãs e para aqueles para quem Bowie era “apenas” um músico, um génio, um ícone.

Porque não sei se ele se despediu tão bem daqueles para quem Bowie era “apenas” o pai, o amigo… quero pensar que sim, mas será que o tímido inglês conseguiu dizer tão bem as ultimas palavras como as cantou?

Estou entorpecida por tudo isto.

Desde a “Monday morning feels so bad” até ao facto no seu twitter ter seguido DEUS no dia em que viria a morrer.

Por isso estou entorpecida, talvez não tanto pela morte, mas pela forma como se “matou”!

Lazarus é tudo o que precisamos de saber após a sua morte!

“Look up here, I’m in heaven
I’ve got scars that can’t be seen
I’ve got drama, can’t be stolen
Everybody knows me now

….
This way or no way
You know I’ll be free
Just like that bluebird
Now, ain’t that just like me?”

E ele não precisará de ressuscitar para ser eterno, ele já o era e agora nunca o esqueceremos.

Adeus Mr. Bowie!
Espero que exista vida em Marte!

#Fuckcancer

 

 

 

 

 

 

Refugiados! 

Estou entorpecida mas não consigo dormir!

Tenho o estômago na boca e as lágrimas na cara! 

Estou cansada de fazer de conta, que façam de conta, que deixem andar!

Não posso ter mais medo, não me posso acomodar! É preciso agir! 

Hoje, como todos os dias, foram partilhadas nas redes sociais fotos dos refugiados da Síria que neste momento tentam chegar à Europa! 

Esta semana já vi crianças aos colos dos pais depois da travessia! O ar de desespero daqueles pais! Mas a chegada a solo dá alento!

Mas hoje… Hoje vi as fotos de algumas daquelas crianças que não chegam! Sem palavras… 

É preciso chocar! É preciso mostrar isto!! É preciso gritar!! É preciso salvar esta gente!!

Um refugiado não vem à procura do nosso trabalho, nem do nosso sistema de saúde! Vem a fugir!! Foge de um país que não o pode proteger! Que mata ou tortura por questões políticas, religiosas, raciais… 

Não são “migrantes”!! São refugiados!!! 

Oh Europa eles não procuram férias! Procuram vida! A deles e a dos outros! E tantos são os outros que não chegam!!  

Espero sinceramente que as fotos se espalhem, as almas latejem, as consciências se pesem e as vozes se ergam! FODASSE! Já chega de fazer de conta que não é nada conosco!! 

Bem sei que há mais desgraca no mundo! (Oh se há!!) Como sei que não podemos/posso salva-lo!! Mas posso fazer alguma coisa, por algum bocado dele!! 

Ah e eu sei que este é um blog sobre maternidade… Mas a maternidade também é isto! É sermos mais que o nosso umbigo e ensinarmos aos nossos filhos que as pessoas são pessoas!! 
… Já fui beijar o meu filho e olhar para ele… Hoje custou um bocadinho mais…