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As palavras por dizer!

Vão ao médico. Frequentem a consulta de planeamento familiar todas as semanas. Usem preservativo, dispositivo intrauterino, o anel, o adesivo e o implante. Espermicida inseticida e óleo de fígado de bacalhau. Laqueiem as trompas e façam uma vasectomia. Deixem crescer todos os pelos do corpo, não usem desodorizante, fio dentário ou pasta dentífrica. Não tomem banho se preciso for! Abstenham-se raios. Cuidem da vossa saúde, não tenham filhos, por favor.

Agora olha para cima, volta atrás e lê tudo do inicio. Posso trata-lo por tu? Chegados aqui, vou assumir que sim, somos amigos.

O que ninguém nos diz antes de sermos pais, é que depois de ter um filho viveremos para sempre no medo de o perder. E não é metáfora, não me refiro a perder um bebé que cresce e depois é do mundo, nada disso, perder perder, ver sofrer ou até morrer. Porque depois da euforia do nascimento nasce essa angustia, incerteza amarga, será que o vou deixar cair, estou a pegar bem, ainda parto alguma coisa, e se ele sufoca a dormir, a morte súbita é um risco, e no carro, vou mudar de carro para um mais seguro, e comprar uma cadeirinha com triplo airbag e atmosfera protetora. Porque agora tudo pode acontecer, e ele é tão frágil, que o único objetivo das nossas vidas é protegê-lo, com a nossa própria vida se for preciso. E não estou a exagerar.

E não acontece nada, ou acontece tudo. Nasce prematuro e os pais acordam de imediato para um limbo de muitas semanas de dúvidas, alimentadas por esperanças. Nasce bem e saudável mas um simples vírus, uma poeira de merda de tamanho microscópico, atira a vida do recém nascido para um novelo de indecisões, onde os pais se embrenham até à ponta do último fio, incapazes e impotentes, jurando dar a vida pelo ser que acabaram de conhecer. Correndo bem tudo se esquece, mas fica o medo, esse fica sempre.

Eles crescem. De bebés se tornam crianças, as saudades que sentimos do primeiro estado, e à medida que crescem qualquer percalço é um apocalipse. Da gripe à varicela, dos cinco pontos na cabeça à perna partida, do choro por perder um amigo à asma asfixiante. 

Ver um filho sofrer é um desastre de proporções inimagináveis. É uma dor na alma, um sobressalto constante. Um filho longe e um telefone a tocar é pólvora ao lado de fogo. E nada nos prepara para isto, nem as imagens da Síria vista no jornal da noite.

Por isso deixo o conselho, que não é ensinamento, mas sim aviso. Na preparação para o parto ninguém nos ensina a sofrer, ninguém nos avisa que vai ser assim para sempre, em todos os dias da nossa vida, ter filhos é ter medo de os perder.

Ainda aqui estás, posso continuar a tratar-te por tu? Vou dizer-te o que os teus outros amigos calaram. Não estás disponível para sofrer, todos os dias, pelos filhos? Volta ao inicio deste texto. Lê todo o primeiro parágrafo, repetidas vezes, até ao fim.

Há sangue suor e lágrimas no caminho da felicidade.

 

(Este texto é escrito ao abrigo do antigo e do novo acordo ortográfico. Num país que criou muitos mestiços eu gosto de misturas)

 

Paulo Couto

2 de Julho 2017

Paulo Couto é pai da Olívia e do Xavier, é empresário e realizador com alma de viajante. Vejam alguns dos seus trabalhos aqui



Os créditos da foto são mais uma vez da Marta Marinho, mulher do Paulo e excelente fotógrafa.

Escolhas!

Há algumas semanas fiquei desempregado.

Perder o emprego é stressante. Preocupas-te com a tua família. Duvidas das tuas capacidades. Preocupas-te com o dinheiro. Afinal de contas, tens um filho para criar.

O meu recém-terminado desafio profissional correu tão bem ou tão mal, que logo na semana seguinte recebi 3 ofertas de emprego. Assim. Out of the blue. E das boas. Mas como não há bela sem senão, todas elas fora do país.

Que fiz?

Recusei sem hesitar. E agora pensam vocês: “Que grande besta. Recusa empregos super bem pagos em NY”. Verdade. Fi-lo. Guilty as charged. Fi-lo e fá-lo-ia de novo, por uma simples razão: o meu filho. Não há dinheiro que compense o facto de não poder estar com ele diariamente. Ou quase. Lirismo? Talvez. Romantismo? Provavelmente. E uma monstruosa dose de egoísmo, pois custar-me-ia tanto ou mais a mim estar distante do que a ele.

“Mas algo há-de surgir em Portugal. A economia está a crescer! Há tanta empresa tão boa, todos os dias surgem novos negócios. Tu tens experiência e conhecimento. Tens trabalho feito para apresentar.”

E aqui o Vasconcelos desata a procurar e a concorrer. Ingénuo…

De todas as respostas a candidaturas que enviei, recebi a mesma resposta. Over-qualified. “Obrigado, és um tipo espectacular, tens um CV impressionante, mas… estávamos à procura de alguém mais júnior, mais jovem, tu entendes [inserir aqui uma série de estrangeirismos cool e cenas]” ou “Adorávamos ter-te na nossa equipa, mas infelizmente não temos budget.” [Eu aqui leio alguém baratinho, de preferência elegível para algum programa do IEFP]. Se calhar, se incluir na carta de apresentação o termo “mature”, esta malta achará mais piada.

Tudo isto para dizer o quê? Para dizer que estamos num país/mundo que obriga as pessoas a afastarem-se dos filhos para os poderem criar. Ou a afastar as crianças da família pela mesma razão, sejamos trabalhadores da construção ou executivos de topo. Eu tenho a sorte de ainda ter uma “almofada” que me vai permitindo continuar à procura de emprego de forma mais ou menos tranquila; há quem não o possa fazer. Há quem esteja pior. Conheço vários casos. Todos conhecemos, infelizmente. Em qualquer dos casos, não é justo. Não é justo para os pais, para as crianças, as famílias, ou sequer para o país.

Não, não pretendo um emprego perfeito, com salário milionário e à porta de casa. Pretendo, sim, um emprego que me dê algum gozo e permita não me preocupar em esticar o dinheiro até ao final do mês e, ao mesmo tempo, desfrutar da paternidade.

Bem vistas as coisas, se calhar peço algo bem mais difícil que um simples emprego milionário…

Vasco Vasconcelos

Pai com uma mente curiosa trabalha na área do marketing e das redes sociais. Sigam o Vasco no Twitter – @vascocv

Mimos

É meu. É meu meu meu. Mordo-o quando me apetece. A sério que sim. Nas bochechas, no pescoço, nas lindas roscas dos pulsos. É meu e ninguém tem nada com isso. Se ando com ele ao colo? Claro. Não o incomodo a perguntar se sabe caminhar, diz-me a experiência científica, feita de observação, que por mais que eu insista ele não se vai levantar. Mordo-o quanto baste, dou-lhe colo sempre que pede ou a mim me faz falta, sendo poucos os minutos que sobram desta equação. O mais novo tem três meses a irmã vai fazer quatro anos. Aplico as mesmas regras com pouca distinção, só mesmo o colo é que, por questões físicas, não suporto por tanto tempo. Mas até me esforço bastante.

Serão mimados todos os dias, cada dia mais, com carinho e atenção (que em dias de maior cansaço falta, e depois é preciso acumular para ressarcir as crianças dos cuidados indevidamente perdidos, porque um filho não se contenta com alguma atenção, quer toda e é devida).

E brincar. Num mundo perfeito eu não voltava a trabalhar para poder passar os dias em brincadeiras com eles. Provavelmente ficava cansado ao fim de algumas horas, e a clamar por algum tempo de trabalho. Mas essa experiência é necessária, porque todos os dias pais e mães tem a experiência oposta: vinte e quatro horas de trabalhos e uma noite de sono, se a matemática o permitisse, para sonhar com horas de brincadeira com os filhos (a matemática e a razão nada querem com as relações de amor, e só isso explica como conseguem alguns pais fazer tanto com tão pouco).

É urgente amar, acarinhar e mimar. Precisamos de crianças livres, amadas e mimadas, muito mimadas. Eu quero que os meus filhos sejam mimados, porque é que a palavra adquiriu uma conotação negativa? Precisamos de adultos mimados e amados, chega de macambúzios de semblante carregado de sinais de indiferença. O meu filho não precisa de aprender a chorar, precisa de saber que quando ele precisar, e seja qual for a razão, eu estarei lá para o pegar ao colo, tenha ele três meses ou trinta anos.

Charles Manson, Jack the Ripper, Adolf Hitler, Josef Stalin, Lucky Luciano, Jesse James, Timothy McVeigh ou Aníbal Cavaco Silva, já li biografias de todos e em nenhuma consta uma frase sobre o excesso de mimo e carinho recebidos na infância.

Paulo Couto

22 Março 2017

Paulo Couto é pai da Olívia e do Xavier, é empresário e realizador com alma de viajante.

Os créditos da foto são da Marta Marinho, mulher do Paulo e excelente fotógrafa. Vejam aqui o trabalho da Marta!

O pai no Caos!

Este é um blogue sobre o doce caos em que a nossa vida se tornou após sermos mães! Tivemos desde o início o objectivo de partilhar experiências, medos, soluções.

No fundo partilhar, ajudar e pedir ajuda com o dia-a-dia de quem tem filhos e com eles tantas e tantas dúvidas. Por esse motivo é que desde o início trouxemos convidados com histórias de vida diferentes das nossas,  mães de gémeos, madrastas, pais que trabalham em continentes diferentes dos filhos, mães com crianças especiais e tantos outros convidados fabulosos!

Durante muito tempo ao primeiro domingo de cada mês contávamos com a participação especial da querida Nutricionista Sandra Almeida e os seus artigos de nutrição infantil. 

Depois lançamos o desafio de nos contarem as histórias dos vossos partos, e tivemos tantas partilhas que de certeza ajudaram quem nos lê desse lado.

Agora chegou a vez do Pai! A partir de amanhã, ao primeiro domingo de cada mês, teremos um post especial escrito por um pai.  Vamos partilhar com vocês o doce caos visto pelo pai.

O pai de serviço no Caos será o Paulo Couto que já foi nosso convidado anteriormente e como poderão ver tem o dom da escrita e do humor!

Ocasionalmente outros pais se poderão juntar a nós e qualquer papá poderá enviar-nos o seu texto para blog@sweetcaos.com

Esperamos continuar a atingir o nosso objectivo e partilhar com vocês pontos de vistas sempre diferentes sobre o doce caos da vida de quem tem filhos.

Esperamos que gostem! 🙂

Não há um manual de como ser pai!

Há pouco mais de quatro anos, tornei-me um pai. Após nove meses de gravidez eu deveria estar preparado, certo? Errado. Independentemente da tua profissão – construção, atendimento ao cliente, negociação de reféns – paternidade é o trabalho mais difícil que existe.

Nos anos anteriores à entrada de cena do Francisco, eu preocupava-me comigo mesmo, o que, nos dias de hoje, é provavelmente normal para alguém de 20 ou 30 e poucos anos de vida.

Tornar-me um pai mudou-me. Todos disseram que assim seria. Toda a gente me disse que tudo seria diferente. “Dorme agora”, disseram … “Sai agora”, disseram eles. Eu estava preparado para as mudanças superficiais (nunca fui muito de sair, de qualquer forma). Para o que eu não estava preparado era para pontapé emocional em cheio nos queixos que a paternidade te dá.

Podem vasculhar as prateleiras marcadas como “paternidade/maternidade” em qualquer livraria e encontrarão uma infinidade de livros sobre a paternidade. Podem pedir conselhos aos vossos pais, mães, tias, primos e amigos; mas independentemente de como nos preparemos para a viagem, a paternidade é algo que só se conhece depois de experimentar em primeira mão.

Os livros podem dar-vos uma ligeira vantagem, mas as palavras numa página não dizem o que sentes quando o teu filho chora horas a fio com cólicas; quando nascem os primeiros dentes; quando fazem cocó no chão, durante a transição para o pote. Livros não dizem como reagir quando a tua criança faz uma birra monumental no supermercado, apenas porque sim.

Sabem porquê? Porque não há uma maneira certa, uma fórmula.

Paternidade traz grandes momentos de auto-dúvida. Como um pai que durante alguns meses ficou em casa, às vezes eu sentia-me numa ilha. E nem sempre podes confiar num livro para te dar a resposta. Costumo refletir sobre o pai que sou e pergunto-me se estou a fazer a coisa certa.

O ponto aqui é que podem ler tantos livros quanto quiserem e conseguirem (tempo livre é algo que rareia quando se é pai de uma criança pequena), que vocês nunca estarão realmente preparados, e não há mal algum nisso. A paternidade é uma daquelas coisas que se vai aprendendo à medida que se vai andando.

Eu confio em ter sido criado com uma boa bússola moral e valores sólidos, que serviram e servem como uma fundação, para me incentivar e guiar-me a tomar as melhores decisões (longe de mim dizer que sou perfeito, ok? Não sou. De todo). Será que as decisões vão ser sempre as mais acertadas? Não. E está tudo bem.

 

Nota do autor: apesar de tudo, ser pai é o melhor que me aconteceu e a experiência mais maravilhosa (e difícil) que já enfrentei. Por mais birras, choros, dúvidas, corridas para as urgências a meio da noite, um simples sorriso, abraço, uma nova competência ou graçola do Kiko fazem com que tudo isso fique para a traz e valha completamente a pena. Pensemos: se assim não fosse, a raça humana estaria extinta há milénios. Sim, sou um pai babado e a gargalhada do meu filho é o que mais feliz me faz neste mundo.

Vasco Vasconcelos

 

Obrigada Vasco pela partilha e um grande beijinho ai para casa, principalmente ao astronauta-jedi Kiko!  😀

 

Não sou Jedi, mas adoro ser Pai!

O Neo da parentalidade

matrix

Filha,

Estás quase a fazer dois anos, o dia do teu nascimento foi algo que desfrutei a cada segundo como quem se delicia a comer a sua fruta preferida sem que se importe do que podem pensar do seu ar de satisfação ou figura, julgo que devem ser privilégios concedidos por ser pai pela segunda vez. Do teu irmão, quando me apercebi da sua existência como ser humano neste mundo já tinham nascido os dois dentes da frente e já apareciam as primeiras febres e até já se aventurava em gatinhar a casa toda.

Contigo foi totalmente diferente, a preparação foi milimétrica, tudo tinha bateria carregada, desde que tirasse fotografias ou gravasse vídeo, só não levei tripés e luzes porque me pareceu exagerado, mas também julgo que a tua mãe não iria achar piada. Tudo ocorreu com normalidade e tu começaste a tua jornada das primaveras, os dias passaram a ser semanas e as semanas rapidamente passaram a ser meses.

Ao longo desse tempo sempre tentaste enganar-nos com as tuas manhas de bebé, mas filhota, eu sou o Neo a desviar-se das balas, tu ainda estavas a pensar fazer das tuas e já estava eu pronto para resolver a situação. Ter esta capacidade fez com que desfrutasse mais estes dois primeiros anos, que para te ser sincero, não são os meus favoritos no que toca a bebés, mas um dia explico-te porquê.

It’s a new dawn, it’s a new day

nina
Tal como a Nina interpretou a música que dá titulo a este segmento, também eu sinto que ninguém me pode tirar este momento que está começar filha. Sim a começar minha pipoca.

Até aqui foi garantir que não te aleijas, que comias a horas, que não tinhas a fralda cagada, que dormias bem, mesmo que isso implicasse que eu não. Mas a partir de agora, está a começar.

É a partir de agora que começas a dizer mais que uma palavra que se entenda, já começas a conjugar essas palavras e a fazer micro frases. Já tens noção de quem te rodeia, não pelos nomes, mas por Pai, Mãe, Mano, Gato, Panda, “ó-ó”. Já sabes que ando de mota e vês-me, do alto da tua janela, a passar na estrada dos “Pópós” como os gostas de chamar. O som de uma mota desperta em ti uma alegria imensa, quando me despeço de ti dizes “xau”, quando pergunto onde vai o mano, respondes sem hesitar, “cola”.

O mundo começa a apresentar-se divertido para ti, tens um espírito aventureiro, sobes cadeiras como quem sobe uma montanha, arriscas brincar com o “gato” quando sabes que te vais aleijar. Corres mais que o Bolt mas cais no segundo a seguir com a graça de uma pétala, choras como se o teu coração estivesse despedaçado para de seguida dizeres duas palavras, “Pai, cola.”. O meu colo é o teu porto seguro, sabes que nele tudo passa.

Adora esta fase, adora tudo nela, as tuas birras, as tuas manhas alegres, a tua perceção do outro e saberes que podes brincar culpando-o dos teus erros, inocentes. Gosto quando és a minha sombra mas adorei mais quando tinhas medo da tua. Adoro não ter 5 segundos de silêncio e os filmes serem vistos em bocados de 30 segundos com pausas de 10 minutos. Adoro quando dizes “banho” quando chego a casa de um dia de trabalho, já sabes que te vou dar banho. Detestas que te ponha água nos olhos, ficas aflita, mas com mais algum treino ficas apta para fazeres apneia em alto mar.

Adoro esta fase, adoro estes momentos.

May the force be with you

force
Como disse à tua mãe no dia do teu nascimento, se não fossem as mulheres, já estávamos extintos à imenso tempo. Eu acredito que tu vais honrar todas as mulheres que antes de ti andaram neste mundo e que servirás de exemplo para as vindouras, sinto isso, não me perguntes porquê, simplesmente sei. Vejo em ti uma força diferente, vejo que és destemida, curiosa, “móza” como tu te chamas quando te pergunto o que tu és, respondes sempre “móza”. Continua assim, teimosa.

Vais entrar na fase de descobrir e falar imenso, vais perguntar muitas coisas, vais querer ainda mais atenção. Vou estar aqui para isso, sei que até aos 5/6 anos o tempo vai voar e nunca mais vou ter esta oportunidade.

Estou ansioso: por dizeres coisas que me vão fazer chorar a rir, por saber que fizeste algo que ninguém estava à espera, por perceber que tens outro ponto de vista, por teres uma inocência malandra que não consigo resistir. Pega nessa tua força e torna estes próximos anos inesquecíveis, porque os dois que passaram já deixam saudades profundas e a lagrima a escorrer pela cara.

Dá-lhe com força que eu vou adorar, não sou nenhum Jedi mas eu aguento, afinal ser Pai é mais difícil.

Pedro Fonseca

Obrigada pelo testemunho Pedro e beijinhos à pipoca 😀

A fazer deles homens! 

Hoje comprei para o meu afilhado de 3 anos dois conjuntos de cozinha! 

Hoje brinquei aos bebés com o meu filho. 

O meu afilhado é rapaz! O meu filho é um rapaz! São os dois bem reguilas, bem mexidos e bem brutos! 

No entanto o meu afilhado gosta de brincar às cozinhas! No entanto o meu filho gosta de brincar aos bebés!

O meu afilhado vê o pai a cozinhar muitas vezes! O meu filho vê o pai a tratar dele muitas vezes!

E é isto! Só isto!

Estamos a fazer dos nossos filhos aquilo que queremos para nós! Homens! 

Homens com H grande! D’aqueles homens que não ajudam, fazem! E se não os há ou há poucos, vamos criá-los! 

“Pais cansados e crianças felizes vivem aqui”

Muita gente que conheço, muitos daqueles de quem fugi ou corri atrás na escola, está nesta fase a ser pai/mãe pela primeira ou segunda vez.
Estamos todos a criar famílias e a povoar o mundo (como se houvesse falta de gente cá).

Não há muito tempo eu estava num restaurante em Almancil, no Algarve, quando vejo uma placa junto ao imenso vidro da cozinha: “ Aqui moram pais cansados e crianças felizes”.

 

restaurante

Foi depois de jantar e é incrível como o álcool ainda me permitia ler.

Desconfiei sempre dos pais de crianças recém-paridas que, ao final de alguns meses, dizem que a vida pouco mudou.
É como ser atropelado por um camião TIR, na auto-estrada, esperar 10 minutos levantar e seguir viagem para mais uma noite de copos. Não faz sentido. Provavelmente o camião passou ao lado, ou só de raspão.

Não quero fazer figura de censor, mas qualquer progenitor sem nódoas de comida na roupa, ombros e braços, olheiras até aos cotovelos, cabelo por pentear e que, a partir do primeiro ano, saiba onde está o comando da televisão, passou ao lado do camião. Ficou sem história para contar, e este camião não faz marcha-atrás.

Deixem-se ser atropelados, pela vossa saúde.

Nota importante: o restaurante é excelente, acho que isso também é importante.

 

Paulo Couto é pai da pequena Olívia, empresário e viajante.

Todas as ilustrações dos convidados são: My Simple Life

Super-Pai à distância

Quando a Bárbara me pediu para escrever este texto adiei a sua escrita até ao dia de hoje.

Porquê?
Simplesmente porque não queria pensar sequer na distância que mais uma vez ia ter dos meus filhos. Guardei esse momento para hoje, em pleno voo, onde me distancia mais de 7000 km de quem amo.

Ser pai à distância é duro, muito duro mesmo. Quem me conhece sabe que ser pai é a profissão que eu gostava de ter. Ter nascido numa grande família, em que todos nos damos bem, enraizou em mim um enorme sentido de família.  Estar longe dela é, sem dúvida, uma dor enorme para mim.
Se há uns anos atrás me perguntassem se algum dia emigraria sem eles, responderia categoricamente que nunca me passaria isso pela cabeça.
Infelizmente a vida troca-nos as voltas e há quase 3 anos fui obrigado a emigrar para Angola.

Podia dizer que cada vez estou mais habituado a isso, mas infelizmente cada dia que me despeço dói cada vez mais. Um dor indescritível, algo nos falta.

Aquele beijo de boa noite, aquele resmungar de não quero isto ou aquilo, aqueles sorrisos que me enchem de orgulho nos filhos que tenho.

O Tomás, agora com 9 anos, é sem dúvida aquele que menos aceita a minha ausência. Ainda não compreende que o faço também por ele, para lhe poder dar aquilo que acho que qualquer criança tem direito – uma vida com o menor sacrifício possível.

Já me questionaram e apontaram o dedo de eu lhe fazer falta mais do que tudo o resto. Estaria mentindo se não dissesse que já me fiz essa pergunta a mim mesmo centenas de vezes.
Vale a pena a distância?
Vale a pena o sacrifício que todos estamos a fazer?
Claro que essa conversa já a tive com a minha esposa algumas vezes e infelizmente ainda tem que ser, principalmente para o bem deles.

Quando vim pela primeira vez, o Tomás ainda não tinha 7 anos. A primeira despedida não custou muito, acho que ele pensava que eu ia ali e vinha já. Quando se começou a aperceber que eu ia ficar muito tempo  fora começou a reagir de uma forma algo estranha para mim. Recusava-se a falar comigo no skype, ou quando falava era uma mensagem relâmpago do género “Ola pai, xau”. Chorava em circunstâncias diversas em que algo o fazia lembrar de mim.  Estando longe, essas atitudes parece que ainda nos doem mais, que somos nós que estamos a provocar estas situações. Quando ele não quer falar connosco, questionamos-nos se os estamos a “perder”, se já não têm saudades nossas, se não querem saber de nós.
Acredito hoje que era mais uma forma de defesa dele perante a minha ausência.

A Inês, agora com 15 anos, como é natural,  sempre compreendeu melhor a minha vinda para fora. Talvez por isso, foi sempre a que custou mais dizer adeus. Sempre que vem ao aeroporto deixar-me despede-se com uma lágrima no canto do olho.
Sem dúvida que nos dias de hoje ser emigrante é bem mais fácil do que no tempo dos nossos pais e avós. Graças às novas tecnologias podemos estar “junto” deles de várias maneiras e sentidos. Felizmente que hoje em dia podemos falar e ver os nossos filhos quase todos os dias (infelizmente há dias sem internet).

Comunico-me com eles sempre que posso, de forma a tentar que o nosso dia a dia seja o mais normal possível.
Com a Inês, já com acessos a Skype, facebook, whatsapp e afins , durante o dia todo é bem mais fácil. Trocamos diversas mensagens durante o dia e partilhamos um pouco o dia um do outro.  Sempre fomos muito ligados e mesmo com a distância acho que consigo manter esta nossa ligação forte.

Como qualquer emigrante, acho que nos agarramos ao trabalho de manhã à noite para tentar esquecer um pouco a ausência da família. Quando eu digo que os piores momentos, quando estou fora, são os fim de semana costumam ficar admirados e não compreender. Estes dias são aqueles que estamos mais frágeis, porque temos mais tempo livre e mais tempo para pensar na família e sentir o quanto nos fazem falta.

Mas como é que algum pai aguenta esta distância dos filhos que tanto ama ou vice versa?
Porque tem uma mulher, aliás uma super mulher, que faz de pai e mãe e que ajuda a que a nossa ausência seja menos dolorosa tanto para os miúdos como para mim próprio.  Uma mãe que me mantém envolvido como pai em tudo que é possível.
Infelizmente a opção de eles emigrarem comigo, no país que estou é uma impossibilidade. Não posso ser egoísta e pensar só em mim. A saúde e educação dos meus filhos estão acima de qualquer decisão que posso tomar e mais uma vez em consenso com a minha mulher achamos que este sacrifício que  todos estamos a ter é o mais acertado.

Pai à distância? Sim, serei pai em qualquer circunstância e todos os sacrifícios valem a pena pelos nossos filhos.

Despeço-me como sempre me despeço dos meus filhos quando venho de viagem….. – “Até já….”

 

Júlio é o super-pai da Inês e do Tomás que divide os seus meses entre Portugal e os Palop.

Todas as ilustrações dos convidados são: My Simple Life

Mãe! Pai!

Eu era a “mamã” e o pai era o “papá” e de um dia para o outro passamos a ser a “mãe” e o “pai”! 

Assim,  sem meio-termo e sem pré-aviso! Se o miúdo tivesse 15 anos ainda percebia está atitude rebelde, mas caramba, ele só tem 19 meses! 

Não sei como isto aconteceu e não parece haver volta a dar, nem nos momentos aflitivos como o acordar a meio da noite o fazem mudar de ideias e lá grita: “Mãe, oh mãe!” 

Cá em casa mantemos entre os adultos o “Vai à mamã!”ou “Dá o comando ao papá.”, mas ele está mesmo decidido a ser um menino crescido e independente! 

Portanto aos 19 meses acabaram-se as paneleirices!