Tag

pais

Browsing

Pai feminista

Sou feminista. Sempre fui feminista e, se algumas vezes não fui o aliado perfeito, foi mais por cegueira causada pelo privilégio de que gozo do que por alguma razão ideológica. Quando, ao final de algum tempo a tentar, a minha mulher finalmente ficou grávida, as dúvidas sobre educação foram mais do que muitas (ainda continuam a acumular-se), mas sempre esteve claro na minha cabeça que, independentemente do género, a criança que aí vinha seria um ser autónomo e igualitário, quer a nível racial, de género ou sexualidade. Não quero com isto vir com a conversa “not all men” ou “all lives matter”, mas exactamente o contrário: “yes, all men” e “black lives matter”. O privilégio de sermos brancos ainda não propiciou momentos de confronto, mas, curiosamente, o meu feminismo é constantemente posto em causa, quer em actos, quer em conceitos.

Tudo começou ainda antes da criança estar cá fora, depois de termos tomado a decisão consciente e, ao contrário do que se possa pensar, nada romântica de não conhecer o sexo físico dela. Se algumas pessoas construíam narrativas de surpresa ou outro disparate semelhante, a maioria ficava frustrada: o que poderiam elas comprar para a criança ou (ainda mais absurdo) como poderia ela desenvolver a sua identidade intra-uterina de forma saudável? A razão para a escolha era simples: queríamos evitar, antes da luta que sabíamos inevitável, a dicotomia que parece inescapável do azul/cor-de-rosa. Ainda que argumentássemos que há uma paleta de cores enorme para além dessas duas ou que meninos podem usar cor-de-rosa e meninas azul, algumas das pessoas atribuíram a escolha apenas à nossa vontade de “ser difíceis”, com muitas a suspeitarem de forma aberta que nós sabíamos, mas recusávamos dizer o que, para elas e de forma determinante, seria a criança.

Mesmo nas aulas pré-parto a diferença entre Mães (com “M” maiúsculo”) e “parceiros” é evidente. Sim, faz algum sentido que as sessões dedicadas ao parto e amamentação sejam mais centradas na experiência da mulher, já que ela é literalmente o centro da acção, mas, mesmo as outras sessões são por vezes, e de forma completamente impensada, quase ridículas: se, por um lado, exigem aos pais o conforto da mãe, por outro vão polvilhando o discurso com estereótipos retrógrados ou mesmo misóginos. Na melhor das vontades, atribuí esses lapsos à cultura vigente e ríamos os dois dessas contradições ignoradas a caminho de casa. Outro ponto importante (e aqui pode ver-se o nosso privilégio) é o insistir na amamentação.

Amamentação é um ponto muito controverso que, mais do que um estado de beatitude e construção saudável de relação entre mãe e criança, se torna numa forma de consumo moral conspícua, onde o privilégio do tempo para isso (a maior parte das mulheres não tem disponibilidade para poder fazê-lo mais do que nos primeiros meses, sem ser prejudicada no trabalho, e mesmo esses meses só graças à lei portuguesa), da capacidade para isso (ao contrário do apregoado, nem todas as mães o conseguem fazer, com alguns números a referir cerca de 10% que não o conseguem) ou mesmo a dificuldade de o fazer (há mulheres a quem a dor ao amamentar é de tal forma insuportável que têm de abandoná-lo) são usadas como armas de superioridade moral contra todas aquelas que têm a temeridade de confessar um desvio à doutrina (aviso à navegação: mantenham-se longe de qualquer mommy war, onde as lactivistas estão prontas a espezinhar a já frágil auto-estima de uma mãe com dúvidas). Se, nos anos 60, a amamentação foi recuperada pelas feministas da medicalização e mercantilização a que estava sujeita, estas posições são prejudiciais e excluem aquelas que precisam de mais ajuda num momento tão difícil. Pela minha parte, admito que a escolha de amamentar também me parece pôr em causa a divisão igualitária das tarefas, já que torna impossível dividir noites ou semanas de sono. Dediquei-me ao que podia, mantendo todas as tarefas domésticas e partilhando as da criança que era possível.

Finalmente chegamos ao ponto que mais me surpreendeu e, quase um ano depois, ainda me continua a surpreender: a forma como é construída e aplicada a imagem de pai bem intencionado, mas incompetente. Tanto de pessoas conhecidas, como de desconhecidas, é-me continuamente reconhecida uma incapacidade de tomar conta da criança de que só a mãe ou alguém que já foi mãe me pode salvar. Isto acontece continuamente. Imaginemos que a criança está inquieta e a chorar na rua: se estiver ao colo da minha mulher, é-lhe reconhecido o azar ou a paciência e desejada sorte, se estiver no meu colo, ouvem-se as perguntas do que poderei eu ter feito e desejada a rápida intervenção da mãe para salvar a criança. Uma qualquer piada que seja feita pela mãe sobre o cuidado ou educação da criança é recebida como jocosa e até talvez com risos, se for feita pelo pai, com choque ou uma oportunidade de esclarecer e salvar a criança daquele bruto.

Voltemos ao início: sou feminista. A minha criança vai sê-lo também, mas há muito trabalho pela frente, para mudarmos esta corrente misógina casual que permeia toda a nossa cultura e não permite o apoio às pessoas, homens e mulheres, que nela vivem. Para que os pais assumam o seu papel de responsáveis perante estes novos seres e perante todas as tarefas domésticas diárias, não podemos defendê-los com uma imagem de incompetência, mas exigir-lhes o mesmo esforço e resultado que esperamos de uma mulher. Ser feminista não é dizer que as mulheres são melhores (principalmente se o limitarmos a tarefas domésticas), mas que são iguais e que por isso todas as tarefas devem ser divididas pelos dois. Quanto aos estranhos que pensam que a criança sofre muito nos meus braços, nem imaginam a quantidade de escolhas não-normativas que escolhemos e às quais a submetemos, na esperança de formar um ser autónomo e completo, com capacidade de, se não livrar-se deles, pelo menos reconhecer e defender-se destes estereótipos e privilégio.

João Miranda é uma pessoa que se perde por vários temas. Quando não está a trabalhar ou a cuidar da prole, escreve para o c7nema.net

Illustration by Jim Cooke.

Contabilista precisa-se

Sim, eu sei que é abusivo aproveitar o blog de uma amiga para vir publicitar as minhas pendências pessoais, mas notem, eu já tenho contabilista, não é como se estivesse desesperado com o IRS de 2016, que já entreguei mas no qual as finanças encontraram divergências, e fosse o caso de o meu contabilista não dar conta do recado tenho ainda muitos amigos capazes de preencher um modelo 3 ou mesmo o 22, entenda-se, mas nenhum que consiga resolver o meu maior problema de contas pois falta-lhes a especialização. Já procurei nas páginas amarelas, que, pasmo geral, ainda existem na internet, já telefonei para a Ordem e até para a autoridade tributária, mas continuo na mesma.

O meu problema é simples: preciso de alguém que faça a contabilidade das horas, pode converter em dias, que eu levo a adormecer os meus filhos, e que no dia do juízo final, o meu entenda-se, interceda por mim junto de quem é de direito para que esse mesmo tempo, praticamente inútil em que, não por minha opção, não pude fazer nada nem mesmo dormir, seja creditado de novo no meu livro (em pequeno aprendi que o nosso futuro já está todo escrito por isso depreendo que exista um livro, bem grande) e eu seja enviado de novo para baixo para gozar o tempo que me é devido, sim para baixo pois com tanta privação de sono e horas de embalo nas costas posso fazer qualquer coisa no futuro que o meu lugar no céu está certamente assegurado.

Sei que estamos na silly season, mas isto não é uma questão menor. Toda as semanas são incontáveis as horas que eu despendo com as minhas duas crianças. Sei que ao ter participado na sua concepção eu, de forma mais ou menos imposta e mais ou menos implícita, aceitei uma série de termos, cláusulas e obrigações, às quais estou vinculado até à morte, e não me arrependo. Atenção, eu não quero deixar de adormecer os meus filhos, aliás, acho um verdadeiro milagre que um bebé de 6 meses adormeça no meu colo só porque sim, porque está no meu colo e é meu filho. Neil Amstrong foi à lua. O super-homem consegue voar pelo céu. O Hulk fica forte e verde e eu adormeço crianças!

Não é todos, calma, apenas os meus. É escusado virem agora com os vossos rebentos todos para a minha porta, nem vou abrir, eles não me conhecem, o meu cheiro será estranho, por isso duvido que se deixem adormecer na segurança dos meus braços. Mas não é incrível que um ser tão pequeno, que ainda mal se habituou ao sol e à chuva, não sabe falar e só com dificuldade leva uma colher à boca, se deixe adormecer nos nossos braços de um quase estranho? 
Por isso calma, não quero renunciar a este privilégio, mas às vezes gostava de ser menos bafejado pela bonança, 15 minutos de embalo são mais do que suficientes, não preciso de beneficiar desta benesse durante mais do que uma hora e várias vezes por noite. Mas, enfim, estou resignado ao facto de que não posso mudar esta triste sina. Não podendo eu mudar isto, há por aí alguém que possa ir anotando as minhas horas de serviço e interceda para que depois sejam devidamente creditadas em tempo para tarefas mais profanas? Obrigado. ​

Paulo Couto é pai da Olívia e do Xavier, é empresário e realizador com alma de viajante. É também o nosso Pai convidado no Sweet Caos.

As dúvidas! 

E quando o amor não chega?

E quando as nossas forças parecem perdidas na nossa mente e não nos lembramos de mais nada a não ser gritarmos? 

E quando achamos que estamos a fazer tudo mal e que tudo está mal? 

E quando a frustração se agarra a nós e não conseguimos gargalhar?

É quando nos deitamos que pensamos que achávamos que era fácil criar, educar, amar… que tontos éramos antes de sermos pais. 

Os Pais no Caos

Vocês já sabem que adoramos ter convidados aqui no blog. Todas as histórias são importantes e as nossas crianças são únicas mas cheias de semelhanças.

Temos uma área no blog só para os convidados onde todos podem partilhar as aventuras da parentalidade connosco, é só mandar email para blog@sweetcaos.com.

Achamos também importante dar voz aos pais e temos feito sempre questão de convidar homens para escrever sobre o modo como lidam com a parentalidade. Com tantos textos fantásticos decidimos criar uma área específica para que possam partilhar as suas histórias. Reunimos todos os textos dos papás aqui.

Teremos muitas novidades em breve! Por isso fiquem atentos. 🙂

“Pais cansados e crianças felizes vivem aqui”

Muita gente que conheço, muitos daqueles de quem fugi ou corri atrás na escola, está nesta fase a ser pai/mãe pela primeira ou segunda vez.
Estamos todos a criar famílias e a povoar o mundo (como se houvesse falta de gente cá).

Não há muito tempo eu estava num restaurante em Almancil, no Algarve, quando vejo uma placa junto ao imenso vidro da cozinha: “ Aqui moram pais cansados e crianças felizes”.

 

restaurante

Foi depois de jantar e é incrível como o álcool ainda me permitia ler.

Desconfiei sempre dos pais de crianças recém-paridas que, ao final de alguns meses, dizem que a vida pouco mudou.
É como ser atropelado por um camião TIR, na auto-estrada, esperar 10 minutos levantar e seguir viagem para mais uma noite de copos. Não faz sentido. Provavelmente o camião passou ao lado, ou só de raspão.

Não quero fazer figura de censor, mas qualquer progenitor sem nódoas de comida na roupa, ombros e braços, olheiras até aos cotovelos, cabelo por pentear e que, a partir do primeiro ano, saiba onde está o comando da televisão, passou ao lado do camião. Ficou sem história para contar, e este camião não faz marcha-atrás.

Deixem-se ser atropelados, pela vossa saúde.

Nota importante: o restaurante é excelente, acho que isso também é importante.

 

Paulo Couto é pai da pequena Olívia, empresário e viajante.

Todas as ilustrações dos convidados são: My Simple Life

Escolhas!

Hoje quando vinha sozinha no carro a caminho do escritório dei comigo a pensar em como as crianças podem ser diferentes, ter gostos diferentes, ritmos diferentes e como os pais também assim o são.

Cada pai e mãe escolhe o caminho para os seus filhos. Normalmente essa escolha é aquilo que os pais acreditam ser o melhor.

Há argumentos, a favor e contra, para todas as escolhas que fazemos por eles.

Se há pais que infelizmente regressam ao trabalho ao final de 4 meses dos seus bebés terem nascido, e se os seus filhos não podem ficar com nenhum familiar, tem na balança que os seus filhos tem que ir para a creche ou para uma ama.
Para ambos os casos há vantagens e desvantagens.

Se os pais podem ficar com os seus filhos em casa, existem na mesma as dúvidas se essa é ou não a melhor opção.
E se sim quando devem os miúdos irem para o infantário? Aos 3 anos? Nunca?

Por cá ainda não se vê muito a “escola em casa”, nem sei se é permitido em Portugal estudar-se em casa.
Mas noutros locais, como nos USA por exemplo, os miúdos podem ter aulas em casa.
Mais uma decisão! Ir ou não há escola?

O que eu acho importante aqui é que os pais devem ser responsáveis pelas suas escolhas.
Ou seja!
Se eu escolho que o meu filho fica em casa comigo, eu sou responsável por lhe promover as ferramentas e os estímulos necessários para que se desenvolva e cresça!
Se eu escolho que o meu filho vai para a creche, eu sou responsável por estar atenta e por fazê-lo sentir-se seguro e amado. Se eu escolho, eu sou responsável pela escolha e por isso devo acreditar nela.  Porem se ela falhar, eu não devo ser culpabilizada. Pois acreditei que era a melhor escolha.

Acho ainda muito importante ressalvar que a escolha deve ser dos pais, não do pai ou da mãe.
Um pai não pode decidir que a mãe fica com o filho em casa, como uma mãe não pode decidir que um pai fica com o filho em casa.

Depois deste palavreado todo posso vos dizer que estive este tempo todo a distrair a mente disto:
“mãe desesperada entra no mar com as duas filhas…. 19 meses, 4 anos, morrem afogadas… alegados abusos e violência…a mãe sobrevive”….

Sobrevive? Como se sobrevive a isto? Quais são agora as escolhas?

Quais foram as escolha que estavam na  balança desta mãe?

O que importa a escola, a educação, se fica na ama, na avó, se é amamentada até aos 2 anos ou só até aos 2 meses…
O que importa é o amor, a segurança, a confiança…

E quando isso falha? quem nos ajuda? quais são as escolhas que temos?

 

O pai do meu filho

Não sei em relação às outras mães mas, não queria, nem conseguia fazer isto sozinha.

Houve um tempo em que sim. Em que ser mãe estava acima de qualquer relacionamento que poderia ter e como eram todos passageiros ponderava seriamente ter um filho sozinha.

Fico feliz que a vida (leia-se Twitter) me tenha trazido a pessoa com quem divido a minha vida é que me permite partilhar a experiência da parentalidade.

Acho que se fala pouco dos pais e da sua importância.

O Zé partilha todas as decisões comigo desde o momento em que decidimos ter um filho juntos. Esteve e está sempre presente.

Conseguimos, realmente um equilíbrio e pomos em práctica a igualdade dos géneros, sendo que essa igualdade não significa que temos de fazer exactamente as mesmas coisas. 

Eu cozinho, quase todos os dias, porque sou eu que o faço melhor. Ele ficou em casa com o Sebastião desde que ele nasceu para eu poder ir trabalhar. Todos os dias nos compensamos. Todos os dias crescemos e aprendemos juntos.

Sinto que o relacionamento com o Sebastião é igualmente repartido. O meu filho não é um ‘filho da mamã’ é um filho dos pais. Está comigo de igual maneira como está com o pai, apesar de cada um de nós ter algo de diferente na nossa relação.

Acho que nunca lhe vou conseguir agradecer o suficiente por ele ser a pessoa que é e, acima de tudo, pelo amor incondicional que preenche as nossas vidas.

E como já tinha dito antes, só ele poderia ser o pai do meu filho.

As birras dos pais

Porque razão os pais fazem braço de ferro com os filhos?

Julgo que a disciplina está muito longe de uma suposta guerra de poder.

O que impede os adultos de olharem para as crianças como indivíduos com vontade própria e respeitarem-nos?

De onde vem a ideia que bebés são manipuladores e manientos? Como é possível os pais olharem para uma criança e acharem que o seu comportamento (o choro, a birra) só existe porque os querem prejudicar?

Somos assim tão egoístas que não vemos que o único modo de os bebés se expressarem é através do seu comportamento?

É habitual ouvirmos expressões como: ‘Não lhe dei… Não lhe fiz… Não cedi… Porque ele tem de aprender!’

Sim, as crianças têm de aprender. Sim, as crianças têm de ser guiadas.

Não permitir algo a um bebé apenas porque não. Porque achamos que não devemos ceder. Que retorno tem essa atitude? O que aprende a criança com isso?

Desculpem-me mas, para mim isso sim, é uma birra.

Talvez esteja na altura de os pais crescerem um pouco.

Molares a caminho

Há dois dias que recomeçaram as noites complicadas (sim, porque deitar-se perto da meia noite e acordar às 3h da manhã é o normal).

Noites complicadas são as noites todas a choramingar, mais biberões e muito colinho.

Isto associado a dedos enfiados na boca e baba só nos vem preparar para mais uma temporada de dentes. A última. 

Com 14 meses só lhe faltam os quatro molares para completar a primeira dentição.

Estes ainda nem sequer se notam e ele já está assim… Vão ser difíceis estes quatro.

Com dentes a partir dos três meses (logo a seguir às cólicas) os dias são recheados de altos e baixos. 

Estas fases mais complicadas exigem muito de todos os pais. 

O importante é não esquecer que exige muito mais dos nossos bebés.

Sobre as memórias 

Sou só eu ou à medida que o tempo vai passando as memórias ocupam um lugar cada vez mais especial nas nossas vidas?

Que fortes são. Hoje, uma amiga recordava os almoços de Domingo, aquele momento é tão vivído que conseguimos ouvir os sons e cheirar a comida na panela.

Dá vontade de ser pequena outra vez e esperar que a mãe nos chame para a mesa.

Hoje construímos novas memórias e talvez, daqui a umas décadas, o S. recorde com saudade os nossos Domingos de manhã.

‘O som da água da piscina, o meu pai a fazer disparates, o cheiro do café que a minha mãe tomava a seguir…’