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Paulo Couto

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Contabilista precisa-se

Sim, eu sei que é abusivo aproveitar o blog de uma amiga para vir publicitar as minhas pendências pessoais, mas notem, eu já tenho contabilista, não é como se estivesse desesperado com o IRS de 2016, que já entreguei mas no qual as finanças encontraram divergências, e fosse o caso de o meu contabilista não dar conta do recado tenho ainda muitos amigos capazes de preencher um modelo 3 ou mesmo o 22, entenda-se, mas nenhum que consiga resolver o meu maior problema de contas pois falta-lhes a especialização. Já procurei nas páginas amarelas, que, pasmo geral, ainda existem na internet, já telefonei para a Ordem e até para a autoridade tributária, mas continuo na mesma.

O meu problema é simples: preciso de alguém que faça a contabilidade das horas, pode converter em dias, que eu levo a adormecer os meus filhos, e que no dia do juízo final, o meu entenda-se, interceda por mim junto de quem é de direito para que esse mesmo tempo, praticamente inútil em que, não por minha opção, não pude fazer nada nem mesmo dormir, seja creditado de novo no meu livro (em pequeno aprendi que o nosso futuro já está todo escrito por isso depreendo que exista um livro, bem grande) e eu seja enviado de novo para baixo para gozar o tempo que me é devido, sim para baixo pois com tanta privação de sono e horas de embalo nas costas posso fazer qualquer coisa no futuro que o meu lugar no céu está certamente assegurado.

Sei que estamos na silly season, mas isto não é uma questão menor. Toda as semanas são incontáveis as horas que eu despendo com as minhas duas crianças. Sei que ao ter participado na sua concepção eu, de forma mais ou menos imposta e mais ou menos implícita, aceitei uma série de termos, cláusulas e obrigações, às quais estou vinculado até à morte, e não me arrependo. Atenção, eu não quero deixar de adormecer os meus filhos, aliás, acho um verdadeiro milagre que um bebé de 6 meses adormeça no meu colo só porque sim, porque está no meu colo e é meu filho. Neil Amstrong foi à lua. O super-homem consegue voar pelo céu. O Hulk fica forte e verde e eu adormeço crianças!

Não é todos, calma, apenas os meus. É escusado virem agora com os vossos rebentos todos para a minha porta, nem vou abrir, eles não me conhecem, o meu cheiro será estranho, por isso duvido que se deixem adormecer na segurança dos meus braços. Mas não é incrível que um ser tão pequeno, que ainda mal se habituou ao sol e à chuva, não sabe falar e só com dificuldade leva uma colher à boca, se deixe adormecer nos nossos braços de um quase estranho? 
Por isso calma, não quero renunciar a este privilégio, mas às vezes gostava de ser menos bafejado pela bonança, 15 minutos de embalo são mais do que suficientes, não preciso de beneficiar desta benesse durante mais do que uma hora e várias vezes por noite. Mas, enfim, estou resignado ao facto de que não posso mudar esta triste sina. Não podendo eu mudar isto, há por aí alguém que possa ir anotando as minhas horas de serviço e interceda para que depois sejam devidamente creditadas em tempo para tarefas mais profanas? Obrigado. ​

Paulo Couto é pai da Olívia e do Xavier, é empresário e realizador com alma de viajante. É também o nosso Pai convidado no Sweet Caos.

Mimos

É meu. É meu meu meu. Mordo-o quando me apetece. A sério que sim. Nas bochechas, no pescoço, nas lindas roscas dos pulsos. É meu e ninguém tem nada com isso. Se ando com ele ao colo? Claro. Não o incomodo a perguntar se sabe caminhar, diz-me a experiência científica, feita de observação, que por mais que eu insista ele não se vai levantar. Mordo-o quanto baste, dou-lhe colo sempre que pede ou a mim me faz falta, sendo poucos os minutos que sobram desta equação. O mais novo tem três meses a irmã vai fazer quatro anos. Aplico as mesmas regras com pouca distinção, só mesmo o colo é que, por questões físicas, não suporto por tanto tempo. Mas até me esforço bastante.

Serão mimados todos os dias, cada dia mais, com carinho e atenção (que em dias de maior cansaço falta, e depois é preciso acumular para ressarcir as crianças dos cuidados indevidamente perdidos, porque um filho não se contenta com alguma atenção, quer toda e é devida).

E brincar. Num mundo perfeito eu não voltava a trabalhar para poder passar os dias em brincadeiras com eles. Provavelmente ficava cansado ao fim de algumas horas, e a clamar por algum tempo de trabalho. Mas essa experiência é necessária, porque todos os dias pais e mães tem a experiência oposta: vinte e quatro horas de trabalhos e uma noite de sono, se a matemática o permitisse, para sonhar com horas de brincadeira com os filhos (a matemática e a razão nada querem com as relações de amor, e só isso explica como conseguem alguns pais fazer tanto com tão pouco).

É urgente amar, acarinhar e mimar. Precisamos de crianças livres, amadas e mimadas, muito mimadas. Eu quero que os meus filhos sejam mimados, porque é que a palavra adquiriu uma conotação negativa? Precisamos de adultos mimados e amados, chega de macambúzios de semblante carregado de sinais de indiferença. O meu filho não precisa de aprender a chorar, precisa de saber que quando ele precisar, e seja qual for a razão, eu estarei lá para o pegar ao colo, tenha ele três meses ou trinta anos.

Charles Manson, Jack the Ripper, Adolf Hitler, Josef Stalin, Lucky Luciano, Jesse James, Timothy McVeigh ou Aníbal Cavaco Silva, já li biografias de todos e em nenhuma consta uma frase sobre o excesso de mimo e carinho recebidos na infância.

Paulo Couto

22 Março 2017

Paulo Couto é pai da Olívia e do Xavier, é empresário e realizador com alma de viajante.

Os créditos da foto são da Marta Marinho, mulher do Paulo e excelente fotógrafa. Vejam aqui o trabalho da Marta!