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Lágrimas do fogo

A televisão estava ligada nas notícias. As imagens indescritíveis dos últimos dias sucediam-se. Comentávamos entre nós o pesadelo das populações do nosso país. O Sebastião brincava num canto.

Começa um segmento em que uma das inúmeras vítimas dos incêndios fala da casa que perdeu. O meu filho levanta-se e vem ter comigo. ‘Mãe, porque é que ela está a chorar?’

Acho que não estava preparada para aquela pergunta. Imediatamente, os meus olhos também se encheram de lágrimas e com a voz meio embargada respondi-lhe: ‘Está a chorar porque ficou sem casa.’

‘Porque é que ela ficou sem casa?’ – O pai continuou a responder pois naquele momento eu não conseguia.

‘Porque houve um incêndio muito grande e a casa ardeu, às vezes acontecem coisas más e não podemos fazer nada.’

Às vezes acontecem coisas más e não podemos fazer nada. Será?

Nota: A fotografia fantástica que está neste post é de Adriano Miranda e foi retirada do jornal Público.

 

 

 

A perda

Voltar a escrever aqui não é fácil. Não é fácil escrever depois de termos passado por perdas para as quais não temos palavras. 

Não é fácil perder o avô do meu filho. Não é fácil perder a amiga que me apresentou ao Zé e com esse gesto originou a minha família.

Não é fácil a perda. 

A nossa vida no entanto não pára. Os dias sucedem-se e com uma criança é mesmo impossível uma pausa, o silêncio que tanto procuramos nestas alturas simplesmente não tem lugar.

Damos por nós a rir e a ser felizes, seguido de uma tristeza profunda por já não o partilhar com quem gostávamos.

O Sebastião está com 22 meses não entende a perda mas percebe a ausência. 

O meu sogro adorava crianças. O nascimento do Sebastião foi realmente um enorme ‘presente’ que eu e o Zé lhe oferecemos.

No dia a seguir ao nascimento, foi logo buscar os papéis para o inscrever no clube do seu coração e é por isso que tenho um pequeno Leão com cartão de sócio desde essa altura. 

  

Comecei a trabalhar a tempo inteiro quando o Sebastião tinha sete meses. A partir dessa altura, o avô todos os dias o ía buscar para passearem. 

Os dois sozinhos. 

O meu sogro não tinha medo nenhum de andar com um bebé tão pequeno. Os passeios começaram por ser na rua, estenderam-se ao bairro e rapidamente à cidade e arredores.

Lá ía ele com ele ao colo, sem uma muda de roupa ou uma fralda, sem um biberão ou uma chucha. Às vezes ficava assustada com esses passeios. Um bebé tão pequeno. E se acontecesse alguma coisa? Nunca disse nada e nunca nada de mal aconteceu. Hoje fico muito feliz por os dois terem partilhado esses momentos.

Sempre que tocava alguém à campaínha ele corria para a porta a chamar pelo avô. Tinha que lhe explicar a sua ausência, e combinámos que iríamos dizer que o avô agora era uma estrelinha.

Foi o que aconteceu. Sempre que ele perguntava eu dizia que o avô agora era uma estrelinha. Ele ouvia e continuava a brincadeira. Pensámos que seria muito pequeno para perceber.

Um dia estava na cozinha e ele veio chamar-me, puxou-me pela mão para me sentar no sofá. Estava a fazer puzzles no iPad e eu pensei que queria ajuda. Pôs-me o iPad no colo. Era um desenho de um ursinho que ía dormir. Ele apontou para uma estrela que estava no desenho e disse: Vô. Como se esperasse uma confirmação minha. Naquele momento só me apeteceu desfazer em lágrimas mas engoli em seco e respondi que sim, que o avô era uma estrelinha como aquela.

Não voltou a chamar pelo avô quando toca alguém à porta. Vê fotos e vídeos mas sem perguntar. As únicas vezes que menciona o avô é se saímos à noite e ele vê o céu estrelado. Aí aponta com o seu dedinho minúsculo para a imensidão do espaço e afirma convictamente que ali está o avô.

Não sei o que entende com os seus 22 meses. Sei que cabe a nós como pais manter vivas as memórias das pessoas que amamos.

Mal posso esperar a altura em que poderei lhe contar que com 8 meses ía de autocarro até ao Campo Pequeno ou de comboio até Queluz comprar pastéis de nata. E no momento em que o levar a ver o primeiro jogo ao estádio, ele irá saber quem o queria levar e que a promessa feita está cumprida. O meu filho saberá sempre o quanto o avô o amava e a única coisa que posso fazer é agradecer o tempo que tiveram juntos.

Por estes motivos, foi para mim complicado escrever nos últimos dois meses. Escrevo este post para encerrar um capítulo, para explicar a minha ausência, para agradecer à Bárbara ter gerido o blog sozinha e acima de tudo, por saber que existem muitos pais a passar pelo mesmo.

 Para eles, apenas lhes digo: Dias melhores virão, basta olharem para os vossos bebés para terem a certeza disso.

Sandra

Lembrar coisas boas

Infelizmente, a nossa gatinha não sobreviveu a complicações relacionadas com a diabetes. Quem partilha a sua vida com animais pode imaginar como está a ser difícil para nós lidar com esta perda. Ela era e será sempre uma parte da nossa família. Hoje a nossa casa está mais vazia. Resta-nos guardar e recordar os momentos que passámos juntos e eu só posso agradecer o modo como ela me aceitou e amou num espaço que já era o dela.

Eu já tinha aqui falado como a relação dela com o Sebastião era tão especial e cúmplice. O carinho que os unia era visível e forte.  Neste momento, ele ainda não se apercebeu da sua falta. Não sei como será nos próximos dias. Sei que quando curarmos a nossa dor, queremos que ele possa partilhar da decisão de acolher outro animal. Para isso terá que ser um pouco maior. Até lá vamos nos tentar só lembrar das coisas boas.