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Quando falta o ar!

A vida começa no útero materno, num momento que precede um modesto contributo paterno, e aí se desenvolve ao longo de nove meses, numa água de vida envolta numa suave bolsa protetora (e como o meu segundo filho nasceu dentro da bolsa, que eu recolhi nas minhas mãos, podia despender aqui muito tempo com detalhes sobre o suave toque na bolsa cheia de liquido).
É neste ambiente único que o feto cresce e se desenvolve: o bebé forma-se na água, recebendo oxigénio, esse veneno mortal, através do cordão umbilical.
Antes de continuar é importante avisar os mais distraídos que “oxidar” provém de “oxigénio”, porque é o, lá está, “oxigénio”, que provoca a “oxidação”. Ora, na velha casa dos meus avós, eu cresci a ver caleiras e portões que teimavam em oxidar, e que obrigavam, por isso, o meu avô a trabalhar.
Na década de oitenta, o meu pai tinha um Renault 5 que, também ele, oxidou bastante e por todo lado, tendo acabado na sucata depois do último verão em que aproveitamos o arejamento adicional que os enormes buracos no tejadilho já proporcionavam. Quando era criança, a minha mãe dava-me uma maçã e insistia para que eu a comesse antes de ela oxidar, aplicando-se o mesmo às bananas, à pêras e aos marmelos na hora de fazer a marmelada. Escapam os limões e as laranjas, vá agora saber-se porque razão ou magia negra.
Regressando ao embrião, se no ventre o contacto com oxigénio é mínimo, já no nascimento dão-se dois milagres: o milagre da vida e o milagre do envelhecimento.
Quando nascemos, os pulmões enchem-se de oxigénio, e todo o corpo é também envolto nesse elemento químico maléfico que começa, de imediato, o processo de envelhecimento. Uma desgraça pegada.
E porque fui lembrar-me disto?
Duas razões.
Primeiro porque a minha filha mais velha foi este ano internada com sérias dificuldades respiratórias. O problema de base foi diagnosticado, alergias, e consequentemente debelado, ou pelo menos controlado, mas é uma dor no coração ver a dificuldade de respirar de um filho que, derivado a um estreitamento das vias respiratórias, tem dificuldade em fazer chegar todo o ar que precisa aos pulmões. E quem diz ar, diz oxigénio.
A segunda razão sou eu, que já por cá ando há 35 anos, em contacto constante com o oxigénio e todos os malefícios daí resultantes, tão visíveis nos portões dos meus avós e no Renault 5 do meu pai. É que o meu corpo tem tido muito contacto com esse elemento, resultado também de um estilo de vida saudável e muitas caminhadas pela montanha, o que claramente tem prejudicado a minha saúde.
Só assim se explica as incontáveis dores cervicais e lombares, a dificuldade que tenho em mexer o pescoço ou caminhar com ambos os filhos no colo. E já nem vou falar da pele enrugada e olheiras omnipresentes e omnipotentes, que se não são maiores é porque felizmente há cada vez mais dióxido de carbono no ar o que vai ajudando à minha saúde pela ausência de oxigénio.
Concluindo, quero só alertar Sr. Trump e todos os politicos e decisores que insistem em ignorar as consequências visíveis da poluição atmosférica. O seu contributo tem sido claramente importante para o meu corpo oxidar mais lentamente, e por esse lado agradeço. Mas este mundo não é só meu, e o oxigénio que a mim, e a ele que já não é novo, tanto incomoda, vai fazendo alguma falta à minha filha, que prefere não passar muito tempo no hospital a respirar por uma garrafa. Ela precisa do ar senhores, façam um esforço por o manter limpo.
Paulo Couto
Paulo Couto é pai da Olívia e do Xavier, é empresário e realizador com alma de viajante. É também o nosso Pai convidado no Sweet Caos.  visitem o seu site 🙂