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Vou ser pai

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Já vos disse que vou ser pai?

Já vos disse que vou ser Pai?

Esta foi a frase que mais proferi naquele ano de 1998. Tantas as vezes a disse que os meus amigos já não a podiam ouvir. Mas a verdade é que precisava de a dizer para me convencer disso mesmo. Ia ser pai.

O que ouvia em retorno era qualquer coisa do género: – Estás tramado!

Eu sabia que nada seria como antes, a partir do momento em que essa condição se materializasse naquela vida carregada dos meus genes, cá fora, sob o efeito da gravidade. E nada foi como antes.

Assisti ao parto de ambos os meus filhos. Embora em circunstâncias completamente diferentes, o amor à primeira vista instalou-se, espalhou-se pela minha pele enquanto os segurava e entranhou-se por todos os sentidos, até hoje e será para sempre incondicional.

O primeiro nasceu prematuro e em risco de vida, dele e da mãe. Naquela manhã cinzenta de janeiro, deixei metade dos pneus do Nissan Micra Super S nas ruas do Porto. Uma cesariana de urgência salvou-lhes a vida. Limpei-o, examinei todos os seus poros e vesti-o. Enquanto a mãe era cosida e recuperava do susto, passei uma hora a falar com ele. Contei-lhe tudo sobre este mundo. Falei-lhe das árvores que iria trepar, das abelhas de que iria fugir, das montanhas que iria subir, do mar que o iria envolver, da música que ele já ouvira ainda no ventre da mãe e de outras que ele iria descobrir, do Sporting com que ele iria sofrer, das gargalhadas que iria dar,… falei do frio e do calor, falei da boa comida e de cerveja, falei do que me veio à cabeça e ele ouvia, de olhos fechados, dormindo com expressão de gozo. Quanto mais o olhava, mais se entrelaçava uma ligação tão forte que ainda a sinto hoje quando nos rimos ou discutimos.

O segundo, de outra mãe, nasceu em ultimato: Ou sais daí ou ficas tipo Benjamim Burton. Não queria vir conhecer o mundo e foi uma carga de trabalhos para o tirar do ventre da mãe. Mas lá veio e a rotina foi a mesma, com exceção da fractura da clavícula que resultou do esforço para o trazer à luz da sala de partos. Repetiram-se as emoções, duplicou a paixão o suficiente para agora dividir o amor por dois rebentos e ainda sobrar muito para admirar e agradecer a ambas as mães.

O facto de ser terapeuta especialista em neurodesenvolvimento da criança poderia me ter preparado para muitas coisas inerentes ao que se espera que um filho vá conseguindo fazer ou perceber porque é que as coisas não estão a acontecer como dizem os livros destas coisas.

Mas, como qualquer pai, presumo, não estava preparado para a intensidade das emoções.

E, nós portugueses, temos muita inibição no que se refere a falar sobre emoções. Um filho na nossa vida, é uma paleta delas todas, de todas as cores. Temos de ir aprendendo a geri-las na tela, de forma a que cada pincelada não altere demasiado o equilíbrio das nossas reações.

Nada foi como antes. A partir desses momentos, a minha vida ganhou um propósito que incluía talvez a mais verdadeira das felicidades. Em cada conquista que faziam, em cada descoberta que lhes fazia sorrir, em cada angústia que os fazia vir ter comigo, em cada fralda que lhes mudava, nas histórias que lhes contava, mas também nas zangas que tivemos, no dizer que não, nas explicações dos porquês, nos “desastres” que provocavam às refeições, no espalhar das tralhas pela casa toda, em cada momento, os meus olhos ainda vêem aquele dia em que nasceram e imaginam um futuro para cada um deles. E isso, para mim faz-me sorrir de felicidade.

Claro que nada foi como antes. Alterei as minhas rotinas todas. O trabalho passou a ser visto como um meio. O prazer estava em ir buscá-los ao jardim de infância mais cedo do que eles estavam à espera. Os fins de semana… bem os fins de semana passaram a me cansar mais do que um mês de trabalho. Mas não trocava um fim de semana prolongado ou umas férias em aventuras pré-programadas ou espontâneas numa qualquer montanha ou resort à beira-mar, como as que tinha antes de ser pai e que me permitiram conhecer meio mundo, pela ausência daqueles traquinas. Não trocava liberdade de chegar a casa às horas que fossem, depois de experimentar mais meia dúzia de cervejas, pela ausência do “está na hora de dar banho ao bebé” ou de um “é preciso fazer a sopa dele” ou um “tens de ir à farmácia porque ele está com febre”. Não trocava um fim de semana em pijama pela ausência da experiência de um acordar com um pigalhete aos pulos em cima de mim, às 6 e meia da manhã.

Ser pai permitiu-me conhecer o outro meio mundo. O mundo que nos faz olhar para os outros percebendo que cada um tem uma história feita do que os meus filhos também são feitos: afectos e emoções ou a falta deles, falhanços e sucessos, boas e más interacções, palavras e silêncios, aprendizagens e esquecimentos, frustrações e conquistas.

Sim. nada foi como antes. Só agora, que um já está na faculdade e o outro é um adolescente, é que começo a recordar muito do que fiz antes de eles entrarem na minha vida. Durante as suas infâncias, parece que essa vida aconteceu numa qualquer encarnação anterior. No fundo, comecei a aprender a viver com os meus filhos e descobri a minha religião: ser pai.

Joaquim Faias, terapia ocupacional na carne, música para alimentar a alma, cerveja para os sentidos, utilizador apple desde sempre, Sporting para sempre e pai como religião.